Em meio à devastação de um dos maiores incêndios da história de Madri, que consumiu 28 mil hectares, uma imagem singular emergiu: uma mancha verde, intacta, onde pastavam sete bisontes. A propriedade, chamada Bisonte Park, viu o fogo entrar em seus limites, mas não consumir tudo. A cena, capturada por satélites, rapidamente deu origem a uma narrativa poderosa: os bisontes como os “melhores bombeiros de Madri”.

A tese é que esses grandes herbívoros, ao pastar, mantêm o terreno limpo de material combustível, agindo como uma barreira natural contra as chamas. A ideia de usar o pastoreio controlado para mitigar incêndios não é nova e é defendida por especialistas. Contudo, a história dos bisontes, embora atraente, simplifica perigosamente um problema de escala planetária e pode desviar o foco das verdadeiras alavancas de mudança.

O pasto e a chama

A teoria por trás do pastoreio preventivo é sólida. A Sociedade Espanhola de Ciências Florestais, por exemplo, classifica a prática como uma das estratégias mais eficazes e econômicas para o manejo de paisagens propensas ao fogo. Programas do tipo já existem em regiões como a Andaluzia. O bisonte, por seu instinto de pastagem, realizaria essa “limpeza” de forma natural e constante.

O problema, como aponta uma reportagem do site espanhol Xataka, é que a evidência é contraditória. Os números sobre a área salva no Bisonte Park variam conforme a fonte. Mais contundente é o fato de que, em agosto de 2024, um incêndio em Andújar devastou boa parte de outra propriedade, El Encinarejo, que abrigava 19 bisontes. A perda ambiental, nas palavras do falecido Fernando Morán, do European Bison Conservation Center of Spain, foi “tremenda”. O bisonte não é, portanto, uma solução milagrosa.

A escala do problema

A fixação em soluções pontuais como a reintrodução de uma espécie ignora a dimensão sistêmica dos mega-incêndios. Especialistas são unânimes em apontar que os principais vetores desses eventos extremos são a temperatura noturna elevada, a intensidade dos ventos e a seca acumulada — todos sintomas de uma crise climática em aceleração. O pasto limpo ajuda, mas é insuficiente para conter uma tempestade de fogo.

Além disso, o foco nos poucos bisontes existentes na Espanha mascara um problema de ordem de grandeza muito maior: o abandono do campo e o declínio massivo do pastoreio tradicional. Em uma década, a Espanha perdeu quase dois milhões de ovelhas e 300 mil cabras, animais que por séculos desempenharam a mesma função de limpeza da paisagem. A escala desse declínio torna o impacto de algumas dezenas de bisontes praticamente simbólico.

A história dos bisontes é uma fábula moderna e poderosa. Ela fala sobre natureza, resiliência e a busca por harmonia. No entanto, no contexto da emergência climática, ela serve principalmente como um alerta: o perigo de nos apaixonarmos por narrativas simples para problemas que exigem intervenções radicais, ambiciosas e, acima de tudo, sistêmicas. Não há atalhos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka