Em um movimento que rema contra a maré global de discussões sobre a semana de quatro dias, a elite industrial alemã está propondo um remédio amargo para sua economia: trabalhar mais, sem necessariamente ganhar mais. Nikolas Stihl, herdeiro do império de motosserras que leva seu nome, defende abertamente o aumento da jornada semanal para 40 horas, ecoando um sentimento que já havia sido expressado por executivos como Martin Brudermüller, do conselho da Mercedes-Benz.
A proposta, que soa como um eco de outra era, é na verdade um sintoma agudo da crise de competitividade que aflige o motor da Europa. A tese dos empresários, segundo reportagem do site Xataka, é que a Alemanha não consegue mais sustentar salários elevados e jornadas reduzidas ao mesmo tempo, especialmente diante de uma produtividade industrial em declínio.
O fim do milagre alemão?
Os números pintam um quadro preocupante. A produção industrial alemã acumula uma queda superior a 15% desde seu pico em 2017. O custo da hora de trabalho na indústria do país é de €45, bem acima da média de €34,9 da União Europeia. A fórmula que por décadas justificou esse prêmio — mão de obra ultra qualificada, infraestrutura de ponta e estabilidade — parece não ser mais suficiente.
O resultado é uma lenta desindustrialização, com gigantes como Volkswagen e BMW anunciando cortes de dezenas de milhares de postos de trabalho. A proposta de Stihl, portanto, não é um corte salarial direto, mas uma tentativa de diluir o custo por hora, extraindo mais valor do mesmo trabalhador para estancar a sangria da competitividade e evitar que mais fábricas fechem as portas ou migrem para países com custos menores.
O sindicato na trincheira
Para o IG Metall, maior sindicato do setor industrial alemão, a proposta é uma armadilha. A entidade, que representa mais de 2 milhões de trabalhadores, argumenta que a semana de 35 horas, uma conquista histórica de uma greve de sete semanas em 1984, já é flexível na prática e que aumentar as horas individuais resultaria inevitavelmente em menos postos de trabalho no total.
A batalha reabre uma ferida antiga no contrato social alemão. A visão dos sindicatos é que a solução para a falta de competitividade não deve recair sobre os ombros dos trabalhadores, mas sim sobre investimentos em inovação e modernização. Para eles, a proposta de "trabalhar mais" é uma solução simplista para um problema complexo de gestão e estratégia industrial.
A discussão na Alemanha serve como um laboratório para uma tensão que se desenha em várias economias maduras. O que acontece quando o prêmio de produtividade que sustenta um alto padrão de vida começa a evaporar? Por enquanto, a resposta que emerge da indústria alemã é um retorno a um dos mais clássicos conflitos entre capital e trabalho.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





