O mercado global de celulose atravessa um momento de inflexão, marcado pela estabilidade dos preços na China e uma cautela crescente entre compradores. Segundo relatório do Bradesco BBI, a tonelada da fibra curta está cotada a US$ 606, enquanto a fibra longa permanece em US$ 662. A leitura aqui é que o apetite por novas aquisições perdeu força, antecipando uma queda sazonal na demanda por papel que costuma impactar o setor nos próximos meses.

Este cenário é agravado pela expectativa de entrada em operação do projeto OKI II, previsto para o intervalo entre o fim de 2026 e o início de 2027. A perspectiva de uma oferta mais robusta no médio prazo leva compradores a postergar decisões, mantendo os preços em patamares estáveis. O movimento reflete uma dinâmica de mercado onde a cautela supera a urgência, mesmo diante de custos operacionais pressionados pelo cenário geopolítico global.

O impacto da oferta futura

A antecipação do mercado em relação ao projeto OKI II funciona como um teto invisível para as cotações atuais. Quando grandes compradores percebem que a oferta global pode se expandir, a tendência natural é a redução dos estoques e a busca por preços mais competitivos. Esse comportamento é uma resposta direta à gestão de risco das empresas de papel, que tentam evitar a compra de grandes volumes antes de uma possível correção.

Vale notar que a oferta relativamente apertada no curto prazo ainda atua como um suporte para os preços, impedindo quedas abruptas. No entanto, o spread estreito entre a fibra curta e o ritmo lento da demanda chinesa cria um ambiente de incerteza. A estabilidade observada nas últimas cinco semanas sugere que o mercado está em um compasso de espera, equilibrando os custos de produção elevados com uma demanda que não demonstra ímpeto de crescimento.

Suzano e a estratégia de margens

Em paralelo, a Suzano adota uma postura defensiva ao anunciar um reajuste de 6% em suas linhas de papel na Europa, com vigência a partir de 15 de junho. A estratégia visa compensar a pressão persistente dos custos de insumos e energia, exacerbada por conflitos internacionais. Para a companhia, que exporta uma parte relevante de seu volume total, sustentar a rentabilidade tornou-se um desafio diante de um mercado europeu que, apesar de mostrar força, exige repasses constantes.

O movimento da Suzano não é isolado. Fabricantes globais como a Rayonier Advanced Materials, Global Cellulose Fibers e Domtar também anunciaram aumentos para junho. A leitura é que o setor vive uma tentativa coordenada de preservar margens, mesmo que a demanda final por papel não apresente o vigor esperado. A eficácia desses reajustes dependerá da resiliência dos clientes finais em absorver esses custos em um ambiente de inflação de insumos.

Tensões no mercado global

A dinâmica entre a oferta de celulose fluff e os produtos de papelão revela que diferentes segmentos do setor reagem de formas distintas às pressões de custo. Enquanto a celulose de uso industrial, como a fluff, vê reajustes frequentes, o mercado de papel de imprimir e escrever enfrenta o desafio da sazonalidade. A divergência entre o que ocorre na Europa e o que ocorre na China aponta para um mercado global fragmentado, onde a geografia dita o ritmo da rentabilidade.

Para os investidores, o monitoramento dos custos de energia e a execução dos grandes projetos de expansão de capacidade continuam sendo os principais indicadores de risco. Se os custos de insumos não cederem, a capacidade de repasse das empresas será testada ao limite, podendo gerar uma compressão de margens caso a demanda global não acompanhe as expectativas de consumo para o segundo semestre.

O que observar daqui pra frente

A principal incerteza reside na duração da estabilidade dos preços chineses e na capacidade dos players globais de manter os reajustes em mercados como o europeu. A pergunta que permanece é se o mercado conseguirá absorver a nova oferta que virá com o projeto OKI II sem que isso resulte em uma queda acentuada nos preços.

Acompanhar o comportamento dos estoques e a evolução dos custos de energia será fundamental para entender se a estratégia de repasse de preços terá sucesso. A volatilidade do cenário geopolítico, como visto no Oriente Médio, mantém as commodities sob constante pressão, o que sugere que a estabilidade atual pode ser apenas uma trégua temporária em um mercado que ainda busca seu equilíbrio.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney