A Comissão de Comércio Justo de Taiwan (FTC) bloqueou nesta quinta-feira a compra da Foodpanda Taiwan pela Grab, em um negócio avaliado em US$ 600 milhões. A decisão, que impede a expansão da super app de Singapura para além do Sudeste Asiático, baseou-se nas complexas relações acionárias e de governança entre a Grab e a Uber, cujos interesses se sobrepõem no mercado taiwanês de delivery.

Segundo Shin Chih-chung, comissário da FTC, os laços acionários, a sobreposição de membros no conselho e o histórico de cooperação entre Grab e Uber reduziriam o incentivo e a capacidade da Grab de competir com a Uber Eats na ilha. Uber Eats e Foodpanda são as duas plataformas dominantes no mercado taiwanês de entrega de alimentos. A Uber, que abandonou o Sudeste Asiático em 2018 em troca de participação na Grab, detém 13,1% da empresa e seu CEO, Dara Khosrowshahi, ocupou um assento no conselho da Grab até julho, quando renunciou para facilitar a aquisição da Foodpanda Taiwan. Essa mudança, segundo a Grab, visava "reforçar o compromisso da Grab em manter um quadro de governança robusto e independente".

Implicações para a concorrência e expansão

A decisão da FTC representa um revés significativo para a Grab, que via a aquisição da Foodpanda Taiwan como um passo crucial para sua expansão geográfica. A ilha seria o nono mercado da empresa e o primeiro fora do Sudeste Asiático. O acordo gerou preocupações entre legisladores e entregadores, que temiam a redução da concorrência e o potencial aumento de custos para consumidores e trabalhadores. A Grab argumentou que a aquisição traria inovação e melhores oportunidades de ganhos, mas os reguladores optaram por manter um cenário de concorrência entre duas plataformas, em vez de um mercado potencialmente dominado por uma única entidade interligada.

O cenário de e-commerce em Taiwan

Taiwan tem se consolidado como um campo de batalha para empresas de delivery e e-commerce. Além da Uber Eats e Foodpanda, a Coupang, gigante sul-coreana de e-commerce, tem expandido agressivamente sua presença na ilha, com um serviço de entrega rápida que cobre cerca de 70% do território. A Shopee, da Sea Limited, também mantém operações robustas. Nesse contexto, a decisão regulatória de manter a concorrência no setor de delivery pode ser vista como uma estratégia para proteger o mercado local e evitar a concentração de poder em poucas mãos, especialmente quando essas mãos estão interligadas por laços corporativos globais.

Precedentes regulatórios e o futuro da Grab

Não é a primeira vez que reguladores taiwaneses intervêm em negócios de delivery por questões de concorrência. Em 2024, a própria FTC bloqueou uma tentativa da Uber de adquirir as operações da Foodpanda em Taiwan, sob argumentos semelhantes. Este precedente reforça a postura cautelosa das autoridades taiwanesas em relação à consolidação de mercado em setores sensíveis. Para a Grab, o bloqueio em Taiwan significa a necessidade de reavaliar suas estratégias de expansão internacional e buscar outros mercados onde a estrutura de concorrência e os laços com rivais globais não representem um obstáculo regulatório.

Perguntas em aberto no tabuleiro asiático

A decisão em Taiwan levanta questões sobre como a Grab navegará em outros mercados asiáticos, especialmente aqueles com estruturas regulatórias complexas ou onde a Uber também opera. A interconexão entre gigantes globais do delivery e transporte, como Grab e Uber, em mercados menores, mas estratégicos, continuará a ser um ponto de atenção para os reguladores. O futuro da Foodpanda em Taiwan, agora sob o escrutínio da FTC, também permanece incerto, assim como a capacidade da Grab de concretizar seus planos de expansão em um cenário competitivo cada vez mais globalizado e regulado.

A Grab expressou decepção, mas a decisão de Taiwan sinaliza um apetite regulatório por manter a concorrência em mercados-chave, mesmo diante de acordos de fusão e aquisição de grande porte. A complexidade das relações corporativas globais e seus efeitos em mercados locais continuará a moldar o futuro do setor de delivery na Ásia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune