Sentado em seu escritório em Tóquio, Takashi Homma não se comporta como um veterano que acumulou mais de sessenta publicações ao longo de três décadas. Aos 63 anos, ele mantém a mesma curiosidade despretensiosa que o levou a registrar o estilo de rua da capital japonesa durante a chamada Década Perdida dos anos 1990. Para Homma, a fotografia nunca foi um exercício de monumentalidade ou prestígio, mas uma necessidade cotidiana, comparável ao ato de comer ou exercitar-se. Sua obra mais recente, 'Portrait of J', lançada pela Dashwood Books, serve como um espelho de sua maturidade artística: um registro que trata celebridades e crianças de amigos com a mesma dignidade, recusando-se a hierarquizar o olhar sobre o sujeito.
A estética da leveza e o fim da autoridade
Homma nutre uma aversão declarada aos livros de fotografia que aspiram à condição de objetos de decoração ou símbolos de status. Ele prefere a simplicidade dos fotolivros finos, quase efêmeros, que um artista produz para uma exposição específica. Essa preferência reflete uma filosofia que valoriza a acessibilidade e a rapidez, distanciando-se do peso intelectual e da rigidez que, segundo ele, costumam acompanhar a fama. O fotógrafo cita como referência o trabalho de Nobuyoshi Araki, cuja atitude perante a edição de livros ele admira profundamente. Para Homma, a verdadeira maestria reside em manter uma certa leveza, evitando a tentação de tornar o livro um objeto pesado ou pretensioso demais para ser manuseado com naturalidade.
Tóquio como um organismo em constante mutação
O fotógrafo observa Tóquio com uma mistura de afeto e distanciamento, reconhecendo que a cidade é, por natureza, um cenário de destruição e reconstrução permanente. Enquanto capitais europeias como Paris ou Milão mantêm suas estruturas de pedra por séculos, Tóquio se reinventa em ciclos vertiginosos que desafiam a permanência. Essa característica torna a cidade um objeto inerentemente fotográfico, perfeitamente adequado para capturar a mudança. Homma admite que sua relação com a metrópole é complexa, marcada pela consciência de sua vulnerabilidade sísmica, mas ele prefere focar no que pode realizar no presente, dentro das possibilidades oferecidas pelo cenário atual.
O controle criativo como ato de resistência
Desde o início de sua carreira, Homma insistiu em manter o controle sobre 90% a 95% do processo editorial de seus livros, da sequência das imagens ao design da capa. Essa postura, que hoje parece natural, foi motivo de críticas severas no início de sua trajetória, quando críticos japoneses sugeriam que um fotógrafo não deveria tentar atuar como editor. Ele compara sua abordagem à de Wolfgang Tillmans, reforçando que o ato de fotografar é apenas uma parte do processo; o verdadeiro trabalho intelectual ocorre no momento de decidir como apresentar o conjunto da obra. Para ele, o fotolivro é um organismo vivo que deve ser bom por si mesmo, sem a necessidade de encadernações complexas ou embalagens que dificultem o acesso direto às imagens.
O futuro de uma sociedade em transformação
Ao ser questionado sobre o que deseja comunicar com seu trabalho para uma audiência internacional, Homma mantém a sobriedade. Ele acredita que a obra deve falar por si, dispensando explicações verbais que limitam sua interpretação. No entanto, ele não ignora as sombras que pairam sobre o Japão, especialmente o declínio demográfico acelerado que coloca o país diante de um cenário de envelhecimento populacional sem precedentes na história moderna. O livro, nesse contexto, torna-se um documento de uma era que pode estar se esgotando. Enquanto o mundo observa as mudanças, o fotógrafo continua em seu posto, pronto para registrar a próxima onda, sabendo que, como na natureza, cada momento é único e irrepetível.
O que resta, ao fechar um livro de Homma, é a sensação de que o registro fotográfico é, acima de tudo, um ato de presença. Em um mundo saturado de imagens digitais instantâneas, ele insiste na materialidade do papel e na curadoria cuidadosa como formas de preservar o que, de outra forma, seria varrido pelo tempo e pela reconstrução incessante da paisagem urbana. A pergunta que permanece não é sobre o que ele fotografará a seguir, mas sobre como aprenderemos a ver o que está desaparecendo diante de nossos olhos.
Com reportagem de Aperture
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