A escrita, para muitos, é um ritual. Para Tanaïs, que assina o recém-lançado livro "Stellar Smoke" pela Dutton, esse ritual assume contornos noturnos e diurnos bem definidos. Em uma conversa reveladora, Tanaïs compartilha um processo criativo que aprofunda a relação entre a imersão na madrugada e a busca por clareza durante o dia, elementos essenciais para a gestação da obra.

Tanaïs descreve a rotina de escrita como um "9 a 5, mas pm a am". A madrugada é o momento de maior conexão com a inspiração, um período em que "o véu está fino" e o mundo adormecido permite uma concentração sem interrupções. A escrita, muitas vezes à luz de velas e com o brilho do computador reduzido ao crepúsculo, pode ser feita à mão, aproximando o rosto das páginas. Essa proximidade física com o texto, mesmo com a "disfunção natural de visão limitada", é descrita como um momento de profunda autenticidade e contato com as palavras. As fases iniciais de um livro, segundo Tanaïs, são predominantemente manuscritas, um processo que exige posterior transcrição para se tornar legível.

No entanto, essa imersão noturna dá lugar a uma transição para as horas diurnas nas fases finais do processo, especialmente durante as revisões. É nesse período que a luz do dia traz uma "clareza e um limite entre trabalho e lazer" que se mostram cruciais. Essa alternância entre a introspecção noturna e a objetividade diurna parece ser a chave para refinar e dar forma às ideias que emergem na escuridão.

A influência de Kiese Laymon, escritor e professor, é destacada como um marco na formação literária de Tanaïs. Laymon, que incentivou Tanaïs a acreditar em seu potencial, ensinou lições fundamentais como "deixe as frases respirarem. Deixe os personagens serem. Revisão, revisão, revisão o libertará". A admiração de Tanaïs por Laymon transcende a relação professor-aluno, revelando um profundo respeito por sua generosidade e amor radical à arte e à liberdade, especialmente no contexto da cultura negra.

"Stellar Smoke" explora temas complexos, como a relação entre humanos e máquinas, e a dificuldade de compreender as mães. Tanaïs revela que a gênese do livro remonta a memórias de infância, onde desenhos animados como "Jem e as Hologramas" apresentavam a inteligência artificial Synergy como uma ferramenta para a protagonista, Jerrica/Jem. Essa premissa, que permitia à personagem se transformar em uma estrela do rock, plantou a semente para as reflexões de Tanaïs sobre a tênue linha entre o humano e o artificial, e as complexidades emocionais que surgem da dependência.

A obra "Mulholland Drive", de David Lynch, é citada como uma influência não literária de peso. A surrealidade psicodélica, o mistério, o sexo e as lutas de poder no filme ressoam com Tanaïs, que descreve o filme como uma "obra-prima queer femme". A intensidade e a beleza crua do filme, visto repetidamente em 35mm, exemplificam a profundidade e a complexidade que Tanaïs busca nas próprias criações.

A jornada de Tanaïs, marcada pela escrita noturna e pela revisão diurna, é um testemunho da diversidade de caminhos para a criação literária. A imersão na madrugada, um espaço de liberdade e introspecção, combinada com a clareza trazida pela luz do dia, molda um processo criativo que culmina em obras como "Stellar Smoke", explorando as profundezas das relações humanas e tecnológicas. A influência de mentores como Kiese Laymon e a inspiração em obras como "Mulholland Drive" solidificam uma abordagem artística que valoriza a autenticidade, a profundidade e a constante busca por clareza.

Com reportagem de Brazil Valley

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