A descoberta de um ancestral, especialmente um figura histórica de renome, pode ser um portal para a compreensão não apenas do passado familiar, mas também das próprias inquietações do presente. Para E. L. Shen, essa jornada começou com Duanfang, seu trisavô, um nome que soava mais como um conto de fadas familiar do que uma realidade tangível. A história oficial pintava um quadro grandioso: um proeminente político Manchu, fundador de uma universidade, defensor do fim da prática de atar os pés e, ironicamente, assassinado por seu próprio exército. A visão se solidificou ao visitar o Metropolitan Museum of Art e ver as peças de bronze que ele colecionou, e ao encontrar parentes na China, confirmando a ligação sanguínea e a importância histórica de Duanfang.
No entanto, a superfície de suas conquistas escondia camadas mais profundas e complexas. A verdadeira revelação veio em uma conversa com sua professora de história chinesa, que desvendou o maior segredo de Duanfang: ele não era Manchu, mas sim Han chinês, que adotou a identidade Manchu para ascender na hierarquia do poder durante a Dinastia Qing. Essa artimanha o levou a posições de grande influência, mas também selou seu destino. Quando a revolução Han eclodiu, Duanfang, já aposentado, tentou provar sua lealdade ao novo regime, mas foi traído e decapitado por seu próprio exército Han, que não acreditou em sua confissão tardia de etnia. A notícia de sua morte e a subsequente ruína de sua família lançaram uma sombra sobre a percepção de Shen sobre seu ancestral, transformando-o de herói em um homem de ambição perigosa e falhas claras.
Um Icaro Histórico
A complexidade de Duanfang intrigou E. L. Shen, impulsionando-a a buscar mais informações. Uma conversa com a Professora Elya Zhang, da Universidade de Rochester, comparou Duanfang a Ícaro, um personagem que voou muito perto do sol. Essa metáfora ressalta a natureza de sua ambição: um desejo insaciável de ser lembrado pela história, que o levou a fundar o primeiro jardim de infância na China e a buscar contato com diplomatas internacionais. Zhang o descreveu como carismático em público, mas introvertido e metódico em particular, com seus diários revelando um homem detalhista em seu trabalho e viagens. A reflexão sobre as escolhas de Duanfang — se ele tivesse permanecido aposentado, poderia ter consolidado ainda mais seu poder — levanta questões sobre o custo da ambição e as trajetórias de vida que poderiam ter sido. A possibilidade de sua família não ter se dispersado e imigrado, e que a própria Shen não estivesse escrevendo esta história hoje, paira como um lembrete das consequências de longo alcance de suas decisões.
O Espelho da Pretensão
A jornada de Duanfang, com suas mentiras e ambições, tornou-se um espelho para as próprias experiências de E. L. Shen. Ela percebeu que, como escritora, a essência de seu trabalho estava em explorar as multifacetadas formas de "fingir" que todos nós empregamos para alcançar nossos objetivos. Desde a infância, passando por apresentações de trabalho, até encontros sociais, a necessidade de "performar" e apresentar uma versão idealizada de si mesmo é uma constante. Shen admite abertamente ser uma "shape-shifter", alguém que se adapta e muda de persona para atingir metas, uma experiência que ela acredita ser compartilhada por muitos. A linha tênue entre a autoconfiança e a autoengano, e o ponto em que a performance se torna uma falsidade prejudicial, é um tema recorrente. A ambição, portanto, é apresentada não apenas como um motor de sucesso, mas como um risco inerente, com um futuro incerto e um potencial para consequências morais e existenciais.
Implicações Familiares e Narrativas
Essa profunda reflexão sobre a pretensão e a ambição de Duanfang serviu como a espinha dorsal para o romance de Shen, "Foreigners". A ideia do "impostor" se desdobrou em múltiplas linhas narrativas, centradas em Yi, uma imigrante taiwanesa nos Estados Unidos em 1965, que luta para se adaptar a um novo país. A mudança de nome de Zheng Yi para "Audrey" marca um ponto de virada, permitindo-lhe redefinir sua identidade e tomar decisões cruciais que moldam seu futuro e o de seus descendentes. No presente, sua neta, Dawn, lida com a síndrome do impostor em uma escola de elite, sentindo-se deslocada. O projeto escolar de Dawn, que exige a entrevista de um membro da família, a leva a sua avó, descobrindo uma teia de mentiras sobre sua história. A investigação de Dawn para desvendar a verdade se entrelaça com a história folclórica de Duanfang, cujo legado de engano e disfarce serve como a fundação temática para as jornadas de Yi e Dawn.
Perguntas em Aberto
Ao entrelaçar as histórias de Duanfang, Yi e Dawn, Shen não busca oferecer respostas definitivas, mas sim explorar as complexidades da identidade, da ambição e do peso das heranças familiares. A história de Duanfang força os personagens a confrontarem suas próprias "pretensões" e a vergonha associada a elas, que pode ser transmitida através das gerações. A missão inicial de Shen era entender seu ancestral, mas no processo, ela se viu interrogando as próprias formas pelas quais ela, sua família e suas personagens são "impostoras" – estrangeiras em suas próprias terras e corpos. Essa jornada aprofundou sua conexão com Duanfang, que deixou de ser um mito ou um herói distante para se tornar um membro complicado e falho de sua família, um homem em toda a sua humanidade.
O legado de Duanfang, marcado por ambição, engano e um fim trágico, ressoa através do tempo, convidando à reflexão sobre as escolhas que fazemos para ter sucesso e o que, moralmente, sacrificamos no caminho. A história de "Foreigners" é um convite para examinar as identidades que construímos e as verdades que escondemos, e como essas narrativas moldam não apenas nossas vidas, mas também as gerações futuras.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





