O cinema tem uma relação peculiar com a poesia. Filmes que se propõem a retratar poetas e o ato de escrever frequentemente acabam por focar mais nas agruras de seus protagonistas do que na essência da criação. Uma análise de obras recentes como By the Stream (Coreia do Sul), Un Poeta (Colômbia) e Late Fame (EUA) sugere uma tendência em retratar poetas como figuras isoladas, lutando contra a incompreensão e a insegurança, num reflexo talvez mais do cinismo contemporâneo do que da realidade multifacetada do mundo poético.

Curiosamente, um ponto de partida para essa reflexão é 'Peter Hujar’s Day', de Ira Sachs, um curta sobre um fotógrafo. Sachs acerta ao mostrar a rotina, as preocupações financeiras e a incerteza de um artista imerso em uma comunidade que pode ou não apoiá-lo. O filme contém uma camada de tragédia, pressagiando a devastação da AIDS que atingiria o círculo do artista, conferindo ao presente uma melancolia que os próprios personagens ignoram. Essa abordagem complexa contrasta com a forma como filmes sobre poetas tendem a simplificar suas lutas.

Em By the Stream, do diretor sul-coreano Hong Sangsoo, conhecemos Donghwa, um poeta de 35 anos que filma casamentos para viver, enquanto seu pai é um advogado renomado. Ao visitar a família pragmática de sua namorada, o conflito se instala. A mãe e a irmã da namorada também são poetas, mas a admiração inicial se desfaz quando a família questiona suas escolhas de vida. A tensão culmina em um jantar onde Donghwa, pressionado a recitar um poema, explode em raiva e desmaia. O filme expõe o abismo entre a expressão artística que a geração mais velha diz admirar e a que tolera nos mais jovens, um conflito universalmente reconhecível.

A Luta pela Expressão em Medellín e Nova York

Un Poeta, segundo longa do colombiano Simón Mesa Soto, mergulha na figura de Oscar, um poeta de meia-idade que vive com a mãe e luta contra a inércia, enquanto amigos e familiares o pressionam para conseguir um emprego. Visto como uma piada pela própria filha, Oscar encontra alguma conexão com uma aluna, Yurlady, que também escreve. O filme sugere que a posição do poeta idealista pode mascarar miopia e covardia. Quando Yurlady se vê em uma situação comprometedora, a trama sacrifica a poesia em favor do drama humano, parecendo sugerir que a arte é apenas uma desculpa para a irresponsabilidade.

Em Late Fame, o herói Ed Saxberger (Willem Dafoe), após décadas trabalhando nos correios, é redescoberto por um jovem admirador. Saxberger, que parou de escrever, é seduzido pela promessa de fama tardia, mas o grupo de jovens intelectuais que o acolhe se revela ridículo e superficial. O diretor Kent Jones retrata o processo de escrita como um 'delírio febril', uma representação que subestima a disciplina da criação poética. A nostalgia por uma Nova York do passado contrasta com a vibrante cena poética real da cidade, que o filme parece ignorar.

Legado, Desilusão e a Realidade Fora das Telas

Adaptando uma novela de Arthur Schnitzler, Late Fame transpõe a história para os dias atuais, mas a premissa de um poeta isolado falha em capturar a realidade da cena poética nova-iorquina. A ideia de que Saxberger estaria alheio a figuras como Eileen Myles ou Anne Waldman, que animam a vida literária da cidade, parece inverossímil. A crítica implícita é que o cinema, ao focar no isolamento, projeta suas próprias frustrações sobre o espectro do fracasso artístico, em vez de retratar a complexidade da vida poética.

Esses filmes revelam uma visão melancólica e simplificada do poeta. A arte é retratada como um fardo, uma fonte de sofrimento, raramente explorando a resiliência, a comunidade e a satisfação da criação. A poesia serve como pano de fundo para temas de fracasso e desilusão. A dificuldade em filmar o ato de escrever — a contemplação silenciosa, a complexidade do discurso — talvez leve os cineastas a recorrer a enredos mais familiares de conflitos interpessoais.

No fim, os filmes parecem questionar se a resistência ao ceticismo ainda vale a pena. By the Stream nos deixa incertos sobre a perseverança de Donghwa. Un Poeta usa a arte como refúgio para a imaturidade. E Late Fame sugere que a completude é encontrada não na fama, mas na reconexão com a própria arte, um momento íntimo que o espetáculo não alcança.

A representação de poetas vivendo em exílio solitário ignora a vibrante e multifacetada comunidade poética real, com seus debates, colaborações e energia. A questão que permanece é se o cinema conseguirá um dia capturar não apenas as lutas, mas também a vitalidade dessa expressão, ou se continuará a vê-la como uma relíquia trágica. Talvez os poetas não precisem do cinema, mas o cinema precisa de personagens que, como eles, ofereçam algo que resista à simplificação e ao cinismo. A persistência da poesia, mesmo marginalizada, é um testemunho de sua força.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub