O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, elevou o tom das críticas à gestão econômica do governo federal, usando a defesa das contas paulistas como plataforma para um ataque direto ao histórico fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em um encontro com empresários do setor de transportes, Tarcísio minimizou o déficit orçamentário de seu estado, classificando-o como tecnicamente irrelevante, enquanto apontava para os déficits primários consecutivos da União.
A manobra verbal do governador é calculada. Ao diferenciar os conceitos de resultado orçamentário e primário, ele busca enquadrar a discussão em seus próprios termos. A tese é que o déficit orçamentário de São Paulo seria apenas uma consequência contábil do uso de superávits financeiros de anos anteriores, enquanto o problema real — o descompasso entre receitas e despesas correntes — estaria em Brasília.
A guerra das planilhas
O cerne do argumento de Tarcísio reside na distinção entre os indicadores fiscais. O resultado primário, que exclui as despesas com juros da dívida, é visto por economistas como o principal termômetro do esforço de um governo para equilibrar suas contas. Segundo o governador, São Paulo acumulou um superávit primário de R$ 27 bilhões em três anos, enquanto a União, no mesmo período, teria registrado um déficit de R$ 335 bilhões.
Ao afirmar que “déficit orçamentário não significa nada do ponto de vista fiscal”, Tarcísio simplifica um debate complexo, mas o faz com um objetivo político claro: construir uma narrativa de responsabilidade fiscal para São Paulo em contraste com o que descreve como descontrole federal. Ele acusa os críticos de “desonestidade intelectual” ou “desconhecimento”, blindando sua gestão e, ao mesmo tempo, mirando em adversários como Fernando Haddad, a quem se referiu como “o cara que quebrou o Brasil”.
O xadrez político-fiscal
Para além da tecnicalidade contábil, o movimento de Tarcísio é eminentemente político. Ele posiciona a gestão fiscal como um pilar de sua identidade política e um ativo para futuras disputas, estabelecendo um contraponto direto ao Partido dos Trabalhadores. A crítica não se limita ao passado; o governador demonstrou ceticismo explícito sobre a capacidade do governo Lula de promover um ajuste fiscal, afirmando que “nunca fez ajuste na vida, vai fazer a partir de agora? Não vai”.
Essa retórica encontra ressonância no mercado e no setor produtivo, preocupados com a trajetória da dívida pública e o aumento do prêmio de risco do país — que Tarcísio comparou ao observado durante o governo de Dilma Rousseff. O debate sobre as contas de São Paulo, portanto, serve menos para esclarecer a saúde financeira do estado e mais como um capítulo na crescente polarização sobre os rumos da política econômica nacional.
O embate fiscal entre o maior estado da federação e a União está apenas começando. Mais do que uma disputa por números, ele sinaliza como a gestão das contas públicas se consolidou como uma das principais arenas do confronto político no Brasil, onde a interpretação dos dados frequentemente se sobrepõe aos próprios fatos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





