O período de adesão ao Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas do governo federal, termina nesta segunda-feira, com a perda de validade da medida provisória que o instituiu. A iniciativa, desenhada para aliviar o peso do superendividamento das famílias, chega ao fim com um balanço de duas faces.
De um lado, os números impressionam: segundo reportagem do InfoMoney, até o fim de agosto, foram renegociadas 5,03 milhões de dívidas, cujo valor original de R$ 26,3 bilhões foi reduzido para R$ 5,2 bilhões. A tese, no entanto, é que o programa funcionou como um analgésico potente para uma dor crônica, mas não curou a doença de fundo. Prova disso é que, mesmo com o Desenrola em vigor, a inadimplência das famílias atingiu um novo recorde.
Um alívio pontual, não estrutural
A arquitetura do Desenrola 2.0 foi pragmática. O governo ofereceu uma garantia por meio do Fundo Garantidor de Operações (FGO) para que os bancos tivessem incentivos para renegociar débitos com descontos agressivos, que chegaram a 90%, e juros limitados a 1,99% ao mês. A lógica era dupla: limpar o nome de milhões de brasileiros com renda de até cinco salários mínimos e, com isso, destravar o consumo, considerado um motor essencial para a economia e um fator relevante para a popularidade do governo.
O resultado foi um alívio imediato e expressivo para uma parcela da população. A possibilidade de usar saldos do FGTS para quitar ou amortizar os débitos adicionou uma camada de eficácia à medida. Contudo, a própria natureza do programa — uma intervenção pontual e com prazo de validade — levanta dúvidas sobre sua capacidade de alterar a trajetória do endividamento no longo prazo. A questão que fica é se o programa apenas adiou um problema ou se de fato construiu uma ponte para a recuperação financeira sustentável das famílias.
A inadimplência que não cede
O contraponto mais duro ao sucesso do Desenrola vem dos próprios dados do Banco Central. Em julho, a inadimplência das famílias em operações de crédito com atraso superior a 90 dias atingiu 5,8%, o maior patamar desde o início da série histórica, em 2011. O indicador subiu mesmo durante a vigência do programa, sinalizando que a geração de novas dívidas problemáticas continua em ritmo acelerado.
Outros dados corroboram o cenário preocupante. O comprometimento da renda mensal das famílias com o pagamento de dívidas também bateu recorde, chegando a 28,9% em junho. O endividamento total, embora com leve queda, permaneceu em 49,8% da renda anual, um patamar historicamente elevado. A leitura aqui é que, enquanto o Desenrola tratou do estoque de dívidas ruins do passado, as condições que geram o endividamento — juros altos no cartão de crédito e cheque especial, compressão da renda e baixa educação financeira — permanecem intactas.
O fim do programa deixa um vácuo e uma pergunta no ar. O alívio concedido a mais de 5 milhões de pessoas foi inegavelmente importante, mas a maré do endividamento continua a subir. Sem reformas estruturais no mercado de crédito ao consumidor, o Brasil corre o risco de precisar de um novo 'Desenrola' em poucos anos, perpetuando um ciclo de endividamento, renegociação e alívio temporário.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





