O endividamento das famílias brasileiras atingiu um ponto crítico. Em julho, o comprometimento da renda com o serviço da dívida alcançou 28,9%, o maior patamar da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. A inadimplência das pessoas físicas acompanhou a tendência e também bateu recorde, chegando a 5,8% no total e a 7,8% nas linhas de crédito livre.

O paradoxo é que os números pioram mesmo após duas edições do Desenrola, programa federal criado justamente para aliviar o peso da dívida sobre os ombros dos consumidores. Segundo reportagem do Brazil Journal, todo o alívio obtido com a primeira fase do programa, encerrada em maio, já foi revertido. A situação expõe uma tensão crescente entre a política de estímulo do governo e a preocupação do Banco Central com a estabilidade do sistema.

Crédito para todos, a que custo?

A deterioração é visível em quase todas as modalidades de crédito. No rotativo do cartão, a inadimplência atingiu o nível alarmante de 65,8%. A expansão do acesso a serviços financeiros, impulsionada em parte por fintechs, parece ter um efeito colateral amargo: dos 96 milhões de brasileiros com cartão, mais da metade (53%) não consegue pagar a fatura em dia e recorre ao rotativo, com juros que orbitam 15% ao mês.

Mesmo modalidades mais recentes, como o consignado privado, mostram sinais de estresse. A inadimplência na linha já chega a 10%, quatro vezes maior que a do consignado para servidores públicos. O cenário acendeu o alerta no Banco Central. O presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, já sinalizou a possibilidade de instituir regras prudenciais, como maiores exigências de capital para os bancos ou aumento do IOF, para frear o que parece ser uma oferta de crédito insustentável.

O governo acelera, os privados freiam

Enquanto o BC cogita pisar no freio, o Executivo acelera na direção contrária. Um exemplo recente foi a flexibilização das condições do Move Brasil, programa para motoristas de aplicativo, que teve o prazo de financiamento estendido. Essa política de estímulo tem um efeito claro na composição do mercado: bancos públicos estão ganhando participação enquanto as instituições privadas aumentam a cautela diante do risco crescente.

Os bancos públicos já respondem por 41,7% do total do crédito na economia. A expansão do crédito direcionado, influenciado pelo governo, cresceu 8% em termos reais em um ano, enquanto o crédito livre, mais sensível ao apetite do setor privado, avançou apenas 2,5%. A análise de Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs, citada pelo Brazil Journal, projeta uma deterioração contínua dos indicadores, pressionados pela Selic elevada e pela desaceleração da economia.

A concessão de crédito via bancos públicos e programas governamentais segue sustentando o ciclo, mas a qualidade desse portfólio é uma questão em aberto. O modelo atual mantém a engrenagem girando, mas o aumento recorde da inadimplência e do comprometimento da renda sugere que a conta, em algum momento, chegará.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech