O recente documentário "You Can See Everything" reacende a memória do caso Theranos, a startup de biotecnologia que prometeu revolucionar os exames de sangue com uma tecnologia que, em essência, nunca funcionou. Elizabeth Holmes, sua fundadora, construiu uma marca poderosa baseada em credibilidade emprestada – um conselho de figuras proeminentes, comparações com Steve Jobs e uma imagem de inovação disruptiva. Contudo, a falta de um produto que pudesse sustentar tais alegações levou ao colapso da empresa e à condenação de Holmes. A lição, que ressoa fortemente na atual era da inteligência artificial, é clara: a confiança construída sobre a reputação de terceiros ou sobre promessas tecnológicas sem comprovação é frágil e, eventualmente, se esgota.

A fragilidade da credibilidade emprestada

A estratégia da Theranos de colecionar credibilidade através de parcerias e endossos de alto perfil, em vez de demonstrar a eficácia de seu produto, é um modelo que se repete em diversos setores. A Forbes, em 2014, destacou o impressionante conselho da empresa, composto por ex-secretários de gabinete, senadores, um almirante e um general. Holmes, com seu icônico suéter preto e a analogia do "iPod da saúde", cultivou uma imagem de visionária. No entanto, esses sinais externos, por mais impressionantes que fossem, não criaram a substância. A credibilidade emprestada funciona como um empréstimo: o produto, ou a tecnologia, deve eventualmente pagar essa dívida com resultados reais. Quando isso não acontece, a marca sofre as consequências. Qualquer organização que se apoie em nomes famosos, parceiros influentes ou tecnologias de ponta para sustentar suas alegações deve se perguntar o que acontecerá quando o próprio produto for examinado isoladamente. Essa questão é crucial para agências que trabalham com IA, cujas promessas muitas vezes dependem de parcerias com grandes players como Google Cloud, Anthropic ou OpenAI. Ser um parceiro de uma gigante tecnológica confere uma base, mas não é prova de capacidade intrínseca.

Transparência: mais que um selo, um processo

A transparência, na era da IA, muitas vezes se manifesta como uma performance. Páginas dedicadas a princípios de IA, declarações de responsabilidade e demonstrações cuidadosamente curadas podem dar a impressão de abertura, mas nem sempre revelam a verdade completa. Uma página de IA responsável que lista princípios sem nomear um responsável direto por sua aplicação, por exemplo, pode ser vista mais como uma decoração do que como um compromisso genuíno. A verdadeira transparência exige mais do que uma porta aberta; requer a disposição de mostrar tudo, incluindo as falhas. Isso significa permitir que clientes e parceiros examinem o produto em seus próprios dados, sem roteiros pré-definidos, e que tenham acesso aos registros de falhas. Na prática, muitas agências utilizam ferramentas como ChatGPT ou Claude como um complemento a fluxos de trabalho já existentes, gerando ganhos de eficiência de 20% a 30%. Classificar isso como "IA nativa" ou "agente" pode inflar a percepção do avanço. Uma abordagem mais profunda envolve a reconstrução do modelo de entrega em torno da IA, em vez de apenas adicionar a tecnologia sobre processos antigos. A distinção entre aprimorar ferramentas e reimaginar o modelo é o que pode transformar ganhos incrementais em saltos exponenciais.

A normalização do desvio na era da IA

O sociólogo Diane Vaughan, ao analisar o desastre do ônibus espacial Challenger, cunhou o termo "normalização do desvio" para descrever como pequenas transgressões de segurança, aceitas uma a uma, tornam-se a norma operacional. Um paralelo pode ser traçado com as alegações de IA. Uma agência pode, em uma primeira campanha, usar o termo "autônomo" quando, na verdade, um humano ainda lida com as exceções, sem que isso gere problemas imediatos. Na campanha seguinte, essa mesma linguagem pode ser reutilizada. Em pouco tempo, a lacuna entre a promessa e a realidade do produto torna-se o padrão. Essa deriva pode ser particularmente perigosa em IA, onde os sistemas podem apresentar resultados que parecem corretos, mas que escondem falhas sutis ou vieses. Os profissionais mais próximos do desenvolvimento são muitas vezes os primeiros a perceber essas lacunas, mas também os menos propensos a verbalizá-las, temendo repercussões. Pressão e questionamento são, portanto, essenciais antes que qualquer alegação de IA seja incorporada a uma campanha de marketing.

Perguntas para testar a promessa

Antes de aceitar as promessas de IA de uma agência, é fundamental fazer perguntas incisivas. Em primeiro lugar, é possível ver a tecnologia funcionando em produção, com todas as suas falhas? Solicitar evidências concretas, baseadas em dados reais e fluxos de trabalho, incluindo os erros, é um passo crucial. Em segundo lugar, quem é o responsável por essa alegação? Atribuir um nome a essa promessa e aos resultados que a sustentam incentiva maior rigor, pois a pessoa saberá que terá que responder por eles. Por fim, o que acontece quando o sistema falha? É vital ter clareza sobre onde a intervenção humana é necessária e garantir que a promessa reflita essa limitação. Testar o processo de transição e a necessidade de suporte humano antes do lançamento pode evitar que os clientes se tornem os primeiros a descobrir as falhas. Em organizações que adotam IA de forma mais madura, onde metade da força de trabalho é composta por agentes de IA e a outra metade por humanos, cada entrega possui um responsável humano nomeado, garantindo que a tecnologia sirva como uma extensão das capacidades humanas, e não como uma substituição opaca.

O legado da Theranos serve como um farol, iluminando os perigos de promessas tecnológicas exageradas. Na era da IA, onde a complexidade pode facilmente obscurecer a realidade, a exigência por transparência genuína e verificação rigorosa não é apenas uma boa prática, mas um imperativo para a construção de confiança duradoura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company