O outono em Veneza, com seus ares de história e arte, parece ser o palco perfeito para celebrações e lembranças. Desta vez, o Festival de Cinema de Veneza prestou uma merecida homenagem a Tinto Brass, cineasta italiano conhecido por sua audácia e transgressão. A exibição de uma nova restauração de seu filme 'Deadly Sweet' (1967) ecoou pelos corredores históricos, um lembrete da vitalidade de uma obra que desafiou convenções. Brass, que iniciou sua carreira como arquivista e assistente de mestres como Roberto Rossellini e Joris Ivens, construiu uma filmografia que transita entre o experimental e o provocativo, culminando em obras icônicas como 'Salon Kitty' e o controverso 'Caligula'. A recente estreia de 'Caligula: The Ultimate Cut' em Cannes, celebrada por Malcolm McDowell como a redescoberta de uma de suas melhores atuações, reforça a pertinência de revisitar e restaurar o cinema, salvaguardando visões artísticas que, por vezes, foram distorcidas ou esquecidas.

Paralelamente a essa celebração da transgressão e da revisão, um outro nome surge como contraponto e inspiração: Andrei Tarkovsky. Antes de sua passagem, o festival também nos trouxe à memória "Ivan's Childhood" (1962), o filme que marcou a estreia de Tarkovsky no longa-metragem. Se Brass explorou os limites da narrativa e da moralidade, Tarkovsky mergulhou nas profundezas da alma humana, da memória e da espiritualidade. "Ivan's Childhood", com sua atmosfera onírica e sua abordagem poética da guerra, já anunciava o gênio que viria a se consolidar em obras como "Stalker" e "Solaris". A obra de Tarkovsky, com sua intensidade lírica e sua busca por um cinema transcendental, representa um polo estético distinto, mas igualmente fundamental, na tapeçaria da história do cinema.

Essas homenagens e lembranças em Veneza, e em outros festivais e cinematecas pelo mundo, sublinham um ponto crucial: a preservação cinematográfica. Em um mundo cada vez mais digital e efêmero, a restauração de filmes antigos não é apenas um ato de conservação, mas uma forma de manter viva a memória cultural e artística da humanidade. Filmes como "Ivan's Childhood" e as diversas versões de "Caligula" nos convidam a refletir sobre como o tempo e as intervenções podem alterar a percepção de uma obra, e como o trabalho de curadores e restauradores é essencial para resgatar a visão original dos cineastas. A luta contra o esquecimento e a degradação é uma batalha constante, travada em arquivos e salas de projeção, garantindo que as vozes e visões de mestres como Brass e Tarkovsky continuem a ressoar para as futuras gerações.

O cinema, em sua essência, é uma arte do tempo e da memória. A celebração de Tinto Brass e a lembrança de Andrei Tarkovsky em Veneza nos convidam a pensar sobre a diversidade de caminhos que um cineasta pode trilhar e sobre a importância de salvaguardar essa herança. O que resta, afinal, quando as bobinas se desintegram e as tecnologias mudam? Resta a força das imagens, a ressonância das histórias e a capacidade de o cinema, mesmo em suas formas mais antigas e restauradas, continuar a nos tocar, a nos provocar e a nos transformar. A arte de Brass e Tarkovsky, em suas diferenças e convergências, nos lembra que o cinema é um diálogo contínuo entre o passado, o presente e o futuro, um espelho em constante mutação de nossa própria existência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Criterion Daily