A busca incessante por eficiência nas empresas, muitas vezes traduzida em cortes de pessoal, parece estar gerando um efeito colateral inesperado: o aumento da carga de trabalho para os funcionários remanescentes. Uma pesquisa recente da Korn Ferry, intitulada Workforce 2026 e baseada em um levantamento com mais de 16.000 profissionais em 11 mercados globais, revela que 62% dos entrevistados sentiram um aumento significativo em suas responsabilidades nos últimos dois anos. Mais alarmante ainda, 61% afirmam estar desempenhando as funções de mais de um cargo, um fenômeno que a consultoria batizou de “two-job job”. Esse acúmulo de tarefas leva a uma situação onde quase metade dos respondentes (45%) se sente sobrecarregada demais para gerar resultados que impulsionem o crescimento.

O Peso do ‘Two-Job Job’ e a Redução de Gestores

O cenário se agrava com a tendência de achatamento das estruturas organizacionais. Empresas como a Uber anunciaram cortes de cerca de 10% de sua força de trabalho, acompanhados por uma redução de 20% nos cargos de gestão. A justificativa, segundo o CEO Dara Khosrowshahi, é criar “propriedade mais clara, decisões mais rápidas e mais tempo gasto construindo em vez de coordenando”, com os recursos economizados sendo reinvestidos em crescimento e inovação. No entanto, os dados da Korn Ferry levantam a questão crucial: as empresas estão eliminando empregos mais rápido do que o trabalho em si? O “two-job job” descreve essa nova realidade, onde funcionários cobrem responsabilidades de múltiplos papéis, muitas vezes enquanto gerenciam ferramentas de IA além de suas tarefas regulares. Os gestores que permanecem se veem com equipes maiores e mais pressão. A pesquisa indicou que 42% das organizações reduziram cargos de gestão no último ano, e mais da metade (55%) dos gestores restantes se declararam exaustos, enquanto 39% dos trabalhadores sentem-se sem direção pela falta de liderança.

A IA: Aliada ou Vilã da Produtividade?

A inteligência artificial, frequentemente apresentada como a chave para a eficiência, mostra uma dualidade preocupante. Enquanto 79% dos CEOs relatam melhorias de produtividade com a IA, apenas 51% dos colaboradores diretos compartilham dessa percepção. Um dado contraintuitivo é que 52% dos trabalhadores que se descrevem como “cansados de IA” afirmam que o uso da tecnologia aumentou suas cargas de trabalho. Pesquisas acadêmicas corroboram essa visão. Um estudo de Arvind Karunakaran (Stanford), Kate Kellogg (MIT Sloan) e Batia Wiesenfeld (NYU Stern) sobre a implementação de ferramentas de IA generativa em um centro médico e um escritório de advocacia revelou que a experimentação, o refinamento de outputs e a adaptação contínua demandaram um trabalho substancial, muitas vezes invisível para a liderança. No escritório de advocacia, mais de 80% dos especialistas desistiram do esforço de inovação em IA devido ao fardo da experimentação e ao suporte limitado, resultando em apenas três ferramentas de IA em uso. O centro médico, que integrou o trabalho com IA às responsabilidades e avaliações de desempenho, possui 141 ferramentas.

O Custo Humano da Eficiência e o Futuro do Trabalho

Kate Kellogg ressalta que a liderança frequentemente assume que a experimentação com IA é uma tarefa adicional que funcionários motivados absorverão. Contudo, “sem suporte significativo, reconhecimento e recursos, as pessoas eventualmente se desengajam”, dificultando a concretização do valor esperado da IA. A Korn Ferry argumenta que as lideranças precisam repensar a divisão do trabalho entre humanos e IA. Os dados de motivação da consultoria são um alerta: a motivação dos funcionários caiu de 71% em 2024 para 61% em 2026. Lesley Uren, CEO da Korn Ferry Consulting, enfatiza que “o crescimento não vem apenas de pedir às pessoas para fazerem mais”. A consultoria sugere que a redução de custos e a reestruturação podem gerar economias, mas sem o engajamento e a paixão dos funcionários que impulsionam a produtividade e o crescimento. O desafio para as empresas reside em definir se “enxugar” significa remover trabalho desnecessário ou simplesmente distribuir mais tarefas entre menos pessoas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune