Canadá e Estados Unidos estão a um passo de selar um acordo comercial para suspender a ameaça de tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em importações canadenses. A trégua, que adia a aplicação das sobretaxas para o próximo sábado, foi descrita por Donald Trump como “muito justa” e por uma autoridade sênior canadense como “um acordo muito bom para o Canadá”, embora as negociações não estejam finalizadas, segundo reportagem da revista Fortune.
A aparente resolução de mais uma crise comercial na América do Norte é, na verdade, a crônica de uma vitória do método. O acordo, costurado sob coação e cujos termos permanecem notavelmente vagos, ilustra a essência da diplomacia transacional de Trump: a ameaça como principal ferramenta de negociação e a ambiguidade como resultado. Para o mercado e para as empresas, a paz selada sem transparência gera mais incertezas do que alívio.
A diplomacia da incerteza
O roteiro seguiu o manual de Trump. No mês passado, o presidente americano invocou uma autoridade legal da era da Grande Depressão, jamais utilizada, para anunciar as tarifas punitivas. A justificativa era uma suposta discriminação canadense contra automóveis, queijos e bebidas alcoólicas dos EUA. O movimento foi uma demonstração de força, mirando setores sensíveis e forçando Ottawa a sentar-se à mesa para evitar um colapso em 5% de suas exportações para o vizinho.
O cerne da discórdia, e agora do mistério, está nos detalhes. Trump afirmou que as tarifas sobre produtos agrícolas americanos seriam “totalmente evisceradas, reduzidas a zero”. Do outro lado, autoridades canadenses garantem que o sistema de “supply management” — um complexo mecanismo de cotas e tarifas que protege o setor de laticínios do país — foi mantido e “não estava na mesa” de negociações. A leitura é que o acordo provavelmente contém concessões assimétricas ou cláusulas criativas que permitem a ambos os lados declararem vitória para suas bases políticas, enquanto a real troca de valor permanece oculta.
Do álcool ao oleoduto
A negociação abrangeu pontos de forte irritação para Washington. Um deles é a restrição à venda de bebidas alcoólicas americanas em oito das dez províncias canadenses, uma retaliação a tarifas anteriores de Trump. O primeiro-ministro Mark Carney já teria solicitado aos governadores provinciais que normalizassem a situação, um gesto de boa vontade que atende a uma demanda direta da Casa Branca e da indústria de destilados dos EUA, que viu suas exportações para o Canadá caírem mais de 70%.
Em paralelo, o acordo acena com a possibilidade de “despertar do túmulo” o oleoduto Keystone XL, um projeto cancelado pelo governo Biden. A eventual retomada do projeto, no entanto, se alinha a um antigo objetivo do Canadá, funcionando mais como um incentivo do que uma nova concessão americana. Para Washington, a trégua tarifária abre caminho para o objetivo maior: iniciar as negociações formais para a revisão do USMCA, o acordo comercial da América do Norte, com o Canadá — um processo que já está em andamento com o México.
A paz comercial, portanto, parece ser tática. A crise imediata foi contida, mas a relação econômica bilateral foi reconfigurada sob o signo da imprevisibilidade. Como resumiu um dos premiês canadenses, “o velho status quo não é possível”. O acordo compra tempo, mas não resolve a tensão fundamental, apenas adia o próximo round de um jogo comercial cada vez mais personalista e volátil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





