Com uma canetada, o presidente Donald Trump reverteu décadas de política de conservação ambiental nos Estados Unidos, ao reduzir drasticamente o tamanho de dois monumentos nacionais em Utah. As áreas de Bears Ears e Grand Staircase-Escalante, que somavam mais de 1,3 milhão de hectares, foram encolhidas em aproximadamente 90% para abrir caminho à exploração de recursos naturais.

A decisão, reportada pelo portal Fortune, é o capítulo mais recente de uma longa disputa sobre o uso de terras públicas no oeste americano. As áreas, protegidas por decretos dos ex-presidentes democratas Bill Clinton e Barack Obama, são sagradas para diversas nações indígenas e abrigam sítios arqueológicos de valor inestimável. Contudo, também guardam depósitos de carvão e urânio, cujo acesso é há muito tempo defendido por políticos republicanos do estado.

O pêndulo da política ambiental

A medida de Trump não é um ato isolado, mas a materialização de uma visão de mundo que enxerga terras federais como um ativo econômico a ser explorado. O movimento desfaz o legado de seus antecessores e se opõe diretamente à agenda do governo anterior, de Joe Biden, que tinha como meta conservar 30% do território e das águas do país até 2030. É o pêndulo da política americana em sua máxima expressão: o que uma administração protege, a seguinte busca desregulamentar.

Para a Casa Branca e seus aliados em Utah, como o governador Spencer Cox, as designações originais foram uma "apropriação massiva de terras" que impedia o desenvolvimento e a autonomia local. A justificativa é que a lei que permite a criação de monumentos, o Antiquities Act de 1906, prevê a proteção da "menor área possível". A leitura da atual administração é que as proteções anteriores foram excessivamente amplas, travando a mineração e outras atividades econômicas.

Cultura versus commodities

Do outro lado da disputa estão as nações indígenas e grupos de conservação. Para eles, a decisão é "desoladora". Bears Ears, em particular, foi o primeiro monumento nacional criado a pedido de uma coalizão de cinco tribos, que consideram a paisagem uma extensão viva de sua cultura, história e espiritualidade. A área contém aldeias ancestrais, locais cerimoniais e cemitérios.

A designação de monumento nacional oferece proteção ampla, barrando novas perfurações, mineração ou construções. A redução drástica da área protegida, portanto, não é apenas simbólica; ela abre a porta para a exploração comercial de recursos em um território de imenso significado cultural e científico. O argumento de que as atividades recreativas eram proibidas nas áreas, usado por Trump, foi desmentido por grupos de conservação, que afirmam que caça e pesca continuavam permitidas sob regulação.

A batalha por Bears Ears e Grand Staircase-Escalante está longe de terminar e deve se desdobrar nos tribunais. O episódio, contudo, cristaliza um debate central nos EUA — e com paralelos evidentes no Brasil — sobre o propósito das terras públicas: são um patrimônio a ser preservado para as futuras gerações ou um reservatório de commodities a ser explorado para o ganho imediato?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune