No coração do deserto do Saara Ocidental, em uma paisagem árida e remota, ergue-se um montículo de pedra incomum com duas fileiras de lajes que se estendem por aproximadamente 55 metros para o leste, conferindo-lhe a aparência de ter "antenas". Este monumento, localizado próximo ao sítio arqueológico de Sluguilla Lawash, conhecido por sua vasta coleção de arte rupestre, foi recentemente datado com precisão, revelando ter entre 4.100 e 4.400 anos. A datação, que situa a tumba entre 2467 e 2150 a.C., foi obtida através de análises de bioapatita, uma técnica aplicada após falhas nas tentativas iniciais com colágeno ósseo. O achado, publicado na revista Archaeology Magazine, é significativo por confirmar a função funerária dessas estruturas, um ponto que até então era apenas uma suposição.
Contexto e Descoberta
A estrutura ovalada, com aproximadamente 12,5 por 10 metros e não ultrapassando 3 metros de altura, foi escavada parcialmente em abril de 2018. A escavação revelou os restos de um indivíduo adulto, com idade estimada entre 25 e 35 anos, posicionado deitado de costas, com a cabeça voltada para o sul e as pernas flexionadas para o oeste. Ao redor do corpo, foram encontrados quatro adornos feitos de casca de ovo de avestruz. A dificuldade em datar o sítio se deveu à má conservação dos ossos e à escassez de artefatos em contextos arqueológicos semelhantes na região. A análise de bioapatita, realizada em amostras do úmero e fêmur, foi crucial para determinar a idade da tumba, preenchendo uma lacuna no conhecimento sobre as práticas funerárias e a monumentalidade no Neolítico final do Saara.
Implicações para a Arqueologia
A confirmação de que o "túmulo com antenas" é, de fato, uma tumba, e a sua precisa datação, são avanços importantes para a arqueologia da região. Até o momento, outros monumentos semelhantes escavados no Saara Ocidental não haviam fornecido material arqueológico conclusivo ou datas confiáveis. Este novo achado permite situar cronologicamente a estrutura dentro da sequência proposta por especialistas, como Andoni Sáenz de Buruaga, que delineou uma cronologia baseada em datações de radiocarbono. A descoberta sugere que essas construções monumentais eram parte de uma fase específica do desenvolvimento cultural e social das populações que habitaram o Saara há mais de quatro milênios, desafiando a ideia de que tais monumentos eram apenas formações naturais ou sem propósito definido.
Desafios e Questões em Aberto
O estudo de sítios arqueológicos no Saara Ocidental é historicamente complexo, marcado pela escassez de vestígios, a dificuldade de conservação e os conflitos geopolíticos na região. A falta de artefatos e a má preservação dos restos mortais dificultaram por décadas a compreensão dessas antigas culturas. Embora a datação tenha sido um sucesso, muitas perguntas permanecem em aberto. A identidade do povo que construiu a tumba, o significado exato da orientação das "antenas" para leste – que alguns estudos sugerem ter bases astronômicas – e a finalidade específica da estrutura monumental ainda são objeto de investigação. A escavação parcial e a análise de um único indivíduo limitam conclusões definitivas sobre rituais ou organização social.
Perspectivas Futuras
A descoberta é um passo promissor para desvendar os mistérios do Saara Pré-histórico. A aplicação de técnicas de datação avançadas em outros sítios da região pode expandir nosso conhecimento sobre a cronologia e a diversidade das práticas funerárias. A colaboração entre universidades e ministérios locais, como a empreendida pela Universidade de Girona e pelo Ministério da Cultura saharaui, é fundamental para superar as barreiras logísticas e de acesso. O estudo contínuo dessas estruturas monumentais promete revelar mais sobre as sociedades que prosperaram em um ambiente que hoje consideramos inóspito, contribuindo para uma compreensão mais rica da história humana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





