O burburinho constante nos saguões dos aeroportos espanhóis, que no ano passado receberam 80,5 milhões de viajantes estrangeiros, raramente é associado à quietude de um contrato de aluguel residencial. No entanto, a conexão entre o fluxo aéreo e a crise habitacional está deixando de ser uma intuição urbana para se tornar uma métrica de mercado. Segundo um estudo da New Economics Foundation (NEF), encomendado pela Transport & Environment, o crescimento do turismo via aérea atua como um catalisador silencioso, porém implacável, na valorização dos aluguéis em economias dependentes do setor.

A lógica é direta: a infraestrutura que facilita a chegada de milhões de turistas também drena a oferta de moradias locais. O relatório aponta que, entre 2026 e 2031, a Espanha enfrentará um encarecimento anual extra de 1,6% nos aluguéis, resultando em uma carga adicional de 648 milhões de euros para os inquilinos. A análise sugere que estamos diante de uma transferência de riqueza estrutural, onde a conveniência do turismo global é financiada pela exclusão habitacional de residentes de baixa renda.

O peso do crescimento descontrolado

A expansão da capacidade aeroportuária, vista por governos como um triunfo econômico, ignora frequentemente as externalidades no tecido urbano. O modelo de crescimento baseado na atração massiva de visitantes gera uma pressão insustentável sobre o estoque residencial limitado. Quando uma cidade prioriza a ampliação de terminais para acomodar mais voos, ela simultaneamente sinaliza ao mercado imobiliário que a demanda por acomodações de curto prazo — o aluguel vacacional — é a via de maior rentabilidade.

Essa dinâmica altera a finalidade do solo urbano. Onde antes havia lares, surgem unidades voltadas a visitantes que, por definição, possuem um poder de compra descolado da realidade salarial local. O resultado é a gentrificação acelerada, onde o morador tradicional é empurrado para periferias distantes, enquanto o centro da cidade se transforma em uma vitrine sazonal, esvaziada de sua função social original.

Mecanismos de transferência de renda

O mecanismo que sustenta essa inflação é a oferta restrita. O relatório da NEF destaca que o impacto não é distribuído de forma homogênea. Em regiões como as Ilhas Baleares e as Canárias, onde a proporção de turistas por habitante supera largamente a média da União Europeia, o fenômeno é acentuado. A escassez de moradia, agravada pela conversão de imóveis residenciais em ativos de turismo, cria um ambiente onde o preço é ditado pela demanda global, não pela capacidade de pagamento local.

Essa distorção cria um ciclo vicioso. O aumento do tráfego aéreo justifica novos investimentos em infraestrutura, que por sua vez atraem mais visitantes, perpetuando a escassez de moradias. Para os proprietários, o retorno sobre o investimento em aluguéis vacacionais é substancialmente superior ao aluguel tradicional, tornando a opção pelo inquilino de longo prazo uma escolha de menor rentabilidade econômica.

Tensões entre stakeholders

A gestão desse conflito coloca em lados opostos reguladores, associações de moradores e o setor de aviação. Enquanto o setor de transportes defende a conectividade como motor de desenvolvimento, grupos como a Ecologistas em Acción argumentam que a gestão da massificação é uma batalha perdida se não houver um freio no crescimento da infraestrutura. A tensão é visível nas ruas, onde protestos contra a turistificação em cidades como Barcelona e Lisboa refletem o esgotamento de uma população que sente, literalmente, o peso dos voos sobre suas cabeças.

Para o Brasil, embora o contexto de turismo internacional seja distinto, o paralelo com o mercado de aluguéis em cidades litorâneas e capitais turísticas é evidente. A busca por um equilíbrio entre a atração de divisas e a preservação do direito à moradia exige políticas que transcendam o setor de turismo e alcancem o planejamento urbano e a regulação imobiliária.

Perspectivas de um modelo em xeque

O que permanece em aberto é a capacidade das administrações públicas em intervir na dinâmica de mercado sem sufocar a economia local. A questão não é apenas se os preços continuarão a subir, mas até que ponto a coesão social de destinos turísticos pode ser mantida sob a pressão de um fluxo constante de visitantes.

O futuro próximo dirá se o crescimento do turismo aéreo será visto como um ativo ou um passivo para as cidades. A pergunta que paira sobre as próximas decisões de investimento é se o bem-estar dos residentes será, finalmente, incluído na conta do lucro turístico ou se continuará sendo a variável de ajuste.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka