A infância de Turner Brooks foi marcada por sons e sensações que se entrelaçavam com a própria estrutura de uma casa antiga à beira-mar no Maine. O eco das conversas dos avós no andar de baixo e o rugido incessante do Atlântico do lado de fora da janela compunham uma sinfonia que, para o jovem Brooks, era tão intrínseca ao pequeno quarto quanto seu papel de parede holandês. Essa fusão de sons, ambiente e experiência pessoal deu origem ao que ele mais tarde definiria como "memória espacial": a noção de que um lugar carrega consigo as vivências de quem o habita, a ponto de, metaforicamente, a arquitetura existir mesmo sem seus elementos físicos. Essa ideia, de que nossas experiências psicológicas dentro de estruturas arquitetônicas possuem o poder de moldá-las, é o cerne de sua nova coleção de ensaios, "Spatial Memories and Preoccupations of an Architect".

Brooks examina edifícios não como objetos autônomos, mas como prismas através dos quais os dramas humanos se manifestam e ganham forma. Em suas mãos, o Grand Central Terminal pode se tornar um útero, de onde outros lugares emanam, e as colunas da Bibliothèque nationale de France, em Paris, ganham a função de amarrar o teto ao chão, impedindo que ele se dissipe com os pensamentos flutuantes de seus ocupantes. A sensibilidade de Brooks se revela eclética, tecendo impressões arquitetônicas da infância com referências que vão da arte de Edward Hopper à filosofia francesa de meados do século, passando pelas ilustrações de Clement Hurd para "Goodnight Moon" e brinquedos de banho a vapor. Essa abordagem singular reflete uma carreira de cinquenta anos praticando arquitetura na Nova Inglaterra, marcada por criações inusitadas: casas poligonais rurais, um campus residencial para pessoas com autismo, um museu subterrâneo dedicado a cérebros em formol e um teatro que evoca a forma de um barco a vapor. Muitas de suas construções remetem a embarcações, algumas até se movem, como o Gilder Boathouse de Yale, que parece ter "encalhado na margem do rio", ou a Peek House em Vermont, projetada para "descansar em bancos de lama, esperando flutuar com a maré alta".

A Arquitetura como Diálogo Contínuo

"Spatial Memories" retrata edifícios como interlocutores entre os espaços internos e os vastos ambientes que os cercam. Brooks recorda a experiência de se envolver no enorme casaco de pele do pai, sentindo que o mundo exterior se tornava mais convidativo através dessa "camada extra". De forma semelhante, a observação do seu entorno a partir do refúgio escuro de sua casa na árvore transformava uma paisagem desolada em algo benigno e simbiótico. Essa ideia de um espaço protetor que reconfigura a percepção do mundo exterior ressoa em sua obra. Os edifícios que Brooks projeta são frequentemente repletos de labirintos, rotas alternativas e espaços contidos em outros espaços, um convite à exploração e à reconexão com o próprio lugar e a jornada.

Influências e Interstícios Arquitetônicos

Uma de suas principais influências na valorização dos "interstícios" arquitetônicos é o conto "A Toca", de Kafka, onde um animal se perde na complexidade de seu próprio refúgio para evitar intrusos. O Sir John Soane’s Museum, em Londres, também é um ponto de referência, com suas casas georgianas que, apesar de íntimas, convidam a um percurso que parece infinito. Em ambos, Brooks encontra um eco de sua própria filosofia: o que vivenciamos em uma obra arquitetônica está codificado em sua infraestrutura e projeto. Essa permeabilidade entre vida social e espaço físico também se manifesta em obras de arte, como "A Anunciação" de Fra Angelico, onde as asas do anjo Gabriel parecem se estender para as colunas, fundindo-o ao ambiente. Em "Rooms by the Sea", de Edward Hopper, Brooks percebe orientações espaciais que reordenam nossa concepção do mundo físico, lembrando-nos da sua própria experiência infantil.

A Tensão entre o Interior e o Exterior

Brooks argumenta que a melhor arquitetura canaliza a tensão entre o "aqui" e o "ali", entre a tátil percepção espacial e a emoção que ela evoca. "Frequentemente é a pulsação entre duas leituras volumétricas deliberadamente ambíguas do espaço que dá vida à obra", ele observa. Essa tensão é palpável em suas próprias construções, que, como descreveu Jonathan Schell em um monógrafo, "difícil pensar em uma única casa de Brooks que não guarde alguma semelhança com um animal, um veículo, uma máquina e um ser humano". A visita ao Cushing Center na Yale School of Medicine, um pequeno museu dedicado à coleção do pioneiro da neurocirurgia Harvey Cushing, exemplifica essa fusão. O espaço, com seus painéis de madeira polida e vitrines curvas, evoca as dobras e sulcos dos órgãos que abriga, transformando a experiência de observar espécimes cerebrais em uma reflexão sobre a arquitetura da mente e da experiência humana.

Perguntas sobre a Mente e o Espaço

Ao avaliar a arquitetura do Cushing Center, o observador é confrontado com a diversidade das formas cerebrais, levando a questionamentos sobre a influência da genética versus a experiência de vida na singularidade de cada indivíduo. Brooks sugere que, em última análise, a distinção pode ser menos relevante do que a própria vivência inscrita no espaço. A arquitetura, em sua visão, não é apenas um palco para as ações humanas, mas um participante ativo, um repositório de memórias e um reflexo das complexidades da mente e da existência. A busca por significado no espaço arquitetônico, portanto, torna-se uma busca pela própria compreensão de nós mesmos e das narrativas que tecemos em nosso entorno.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Paris Review Blog