Em um gesto de forte simbolismo, o Teatro Nacional de Tóquio, um ícone arquitetônico do pós-guerra atualmente fechado para uma grande reforma, reabrirá suas portas por apenas dois dias. Em 12 e 13 de setembro de 2026, seu palco principal, normalmente escuro e inacessível, se tornará o cenário da exposição 'FUTURE HISTORY: Lineage and Form of Onnagata', organizada pelo coletivo de arte independente RANSHOU, segundo reportagem do Hypebeast.

A iniciativa permitirá que o público caminhe fisicamente pelo mesmo espaço onde gerações de mestres do Kabuki se apresentaram. Mais do que uma simples mostra, a exposição propõe uma reavaliação crítica de uma das mais reverenciadas formas de arte do Japão, e especificamente a tradição do onnagata — atores masculinos que interpretam papéis femininos. A tese aqui é usar o silêncio do teatro para dar voz a uma nova narrativa sobre memória, gênero e forma.

Uma lente feminina sobre a tradição

A curadoria é de Ranshou Fujima, dançarina e coreógrafa que dirige a RANSHOU. Sua perspectiva é central para o projeto: Fujima, uma mulher, treinou extensivamente nas técnicas clássicas do Kabuki, um universo tradicionalmente dominado por linhagens familiares masculinas. Para ela, os clássicos não são relíquias, mas presenças vivas que dialogam com o presente.

O objetivo de Fujima, segundo a proposta da exposição, é desvendar o apagamento histórico das mulheres nas narrativas performáticas tradicionais. Ao fazer isso, ela busca recontextualizar três séculos da prática onnagata através de um olhar declaradamente feminino e contemporâneo. A peça central da mostra, Kyōkanoko Musume Dōjōji (A Donzela no Templo Dōjōji), o mais antigo drama de dança Kabuki baseado no teatro Noh, serve como ponto de partida para essa investigação.

Diálogo entre passado e presente

A exposição se divide em cinco seções temáticas, justapondo mais de 100 obras históricas e documentos de arquivo com colaborações criativas atuais. Os visitantes encontrarão textos raros do século XVII, como edições de Ōjōyōshū e Heike Monogatari, gravuras ukiyo-e de mestres e figurinos originais cedidos pela Shochiku Costume Co.

Esses artefatos históricos dialogam diretamente com projetos contemporâneos, como calçados geta de acrílico desenvolvidos com o escritório do arquiteto Shigeru Ban e novas fotografias em papel washi do artista RK. O movimento sugere uma tentativa de resgatar o Kabuki e o ukiyo-e da categoria de 'mero entretenimento vernacular', onde foram colocados durante a modernização do Japão na era Meiji, e reconectar suas raízes com a literatura, religião e vida social.

Ao mapear a evolução do onnagata e evocar a tradição esquecida do kabuki feminino que existia dentro do Ōoku (os aposentos das mulheres no Castelo de Edo), 'FUTURE HISTORY' não busca dar uma resposta definitiva. Pelo contrário, constrói uma ponte holística entre o passado e o presente, convidando o público a ocupar um espaço carregado de história para refletir sobre como as tradições são formadas, preservadas e, crucialmente, quem tem o poder de contá-las.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast