Começou a demolição da Rike Concert Hall em Tbilisi, capital da Geórgia, uma obra assinada pelo renomado escritório italiano Studio Fuksas que nunca chegou a ser inaugurada. Imagens da imprensa local mostram o revestimento metálico sendo removido da estrutura, menos de duas semanas após a prefeitura emitir a permissão para que o proprietário atual levasse o edifício ao chão.
Concluído em grande parte em 2012, o projeto tornou-se um elefante branco de alto pedigree arquitetônico. A obra é um símbolo da era do ex-presidente Mikheil Saakashvili e seu plano de rejuvenescimento urbano. Segundo reportagem da publicação de design e arquitetura Dezeen, a mudança de governo no país naquele mesmo ano é vista como o principal motivo para o abandono do projeto, que ficou indelevelmente associado ao regime anterior.
O peso da política
O design da sala de concertos é inconfundível: dois grandes volumes em formato de tubo, cobertos por painéis de aço inoxidável que se assemelham a escamas, abrindo-se para um parque à beira do rio. A obra era uma aposta em arquitetura-espetáculo para reposicionar a imagem da cidade. Contudo, ao se tornar um passivo político, seu valor arquitetônico foi relegado a segundo plano.
Após uma década de abandono, o prédio foi vendido a um desenvolvedor imobiliário em 2022 e, posteriormente, ao seu dono atual, a Makro Constructions. A decisão de demolir, em vez de reformar ou adaptar, ilustra como o capital político de um edifício pode superar seu capital cultural. Para o novo poder, era mais fácil apagar o legado do antecessor do que integrar sua visão à paisagem urbana.
Preservar ou demolir?
O Studio Fuksas descreveu a demolição como um "revés cultural significativo". Em comunicado, o escritório afirmou ter tentado, sem sucesso, contatar as autoridades georgianas para explorar alternativas que pudessem preservar e dar novo uso ao edifício. As propostas, segundo os arquitetos, não obtiveram resposta. O episódio levanta um debate mais amplo sobre a fragilidade do patrimônio arquitetônico moderno.
Diferente de monumentos antigos, edifícios contemporâneos, especialmente aqueles com forte identidade visual e associação política, correm o risco de se tornarem obsoletos não por falha estrutural, mas por mudança de narrativa. A demolição em Tbilisi não é apenas a perda de uma estrutura, mas o apagamento de uma visão — um ato que questiona a responsabilidade de governos e proprietários na gestão do legado construído.
A trajetória da Rike Concert Hall, da concepção ambiciosa à demolição prematura, serve como uma advertência. O caso demonstra a rapidez com que a ambição arquitetônica pode colidir com a realidade política, deixando para trás não apenas escombros, mas um vácuo cultural. A questão que permanece é sobre como as cidades decidem o que é digno de memória e o que pode ser descartado em nome do presente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





