A Vale publicou seu segundo relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e clima, adotando as normas internacionais IFRS S1 e S2. O documento de 232 páginas detalha como a mineradora busca converter passivos ambientais em oportunidades de negócio, focando na mineração circular para reduzir a dependência de barragens de rejeitos. Segundo a empresa, a estratégia é uma resposta direta aos riscos operacionais e financeiros impostos pelo histórico de desastres em Mariana e Brumadinho.
O movimento reforça a transição da Vale para um modelo de gestão onde o resíduo deixa de ser apenas um custo de disposição para se tornar insumo produtivo. A companhia mantém o reporte de forma voluntária, mesmo após a CVM retirar a obrigatoriedade para empresas de capital aberto, optando pelo modelo de transparência como ferramenta de governança frente a investidores e reguladores.
O pilar da mineração circular
O programa Waste to Value é o eixo central dessa estratégia, visando reduzir a geração de estéril e reaproveitar materiais já depositados. Em 2025, a Vale produziu 26,3 milhões de toneladas de minério de ferro a partir de reaproveitamento, o que representa 8% de sua produção total. A meta é elevar essa fatia para 10% até 2030, criando uma nova linha de receita que, simultaneamente, diminui a necessidade de novas barragens.
Além do minério, a empresa tem comercializado areia sustentável e componentes para a construção civil, como blocos e pisos. A leitura aqui é que a estratégia busca mitigar o risco físico e reputacional associado ao armazenamento de rejeitos, transformando o que antes era um passivo ambiental em um ativo comercializável, melhorando a eficiência operacional da mineradora.
Riscos financeiros e passivos históricos
O relatório detalha os impactos financeiros dos desastres de Mariana e Brumadinho, que continuam a pressionar o fluxo de caixa da companhia. Os desembolsos previstos para recuperação e reparação somam bilhões de reais no curto e médio prazo, com cifras que chegam a R$ 23,7 bilhões para Mariana em um horizonte de médio prazo. A Vale reconhece a complexidade de mensurar todos os efeitos financeiros futuros, dada a incerteza jurídica e a escala catastrófica das ocorrências.
A gestão de barragens permanece como o maior risco operacional identificado. A empresa encerrou 2025 sem nenhuma barragem no nível 3 de emergência, tendo descaracterizado 19 estruturas desde 2019. O esforço de descaracterização é um imperativo estratégico para a continuidade do negócio, dado que o custo de manutenção e o risco de novos eventos superam a viabilidade econômica do modelo tradicional de disposição.
Implicações para o setor e stakeholders
A adoção voluntária das normas IFRS S1 e S2 sinaliza um compromisso da Vale com padrões globais de transparência, mesmo em um cenário regulatório local flexível. Para o mercado, a estratégia de mineração circular oferece um precedente relevante: a sustentabilidade deixa de ser um tópico isolado de ESG e passa a ser integrada ao core business, impactando diretamente a estrutura de custos e a geração de valor da companhia.
Concorrentes e reguladores observam a iniciativa como um possível novo padrão para o setor de mineração. A redução do volume de rejeitos é uma demanda crescente da sociedade e de investidores institucionais, que exigem maior segurança operacional e menor pegada ambiental. A capacidade da Vale de escalar o reaproveitamento de estéril será o principal indicador de sucesso dessa transição estratégica nos próximos anos.
Perspectivas e incertezas
Permanecem incertas a velocidade de descaracterização das barragens remanescentes e a viabilidade econômica de longo prazo para todos os produtos derivados de rejeitos. O mercado aguarda a execução das metas para 2030, observando se a eficiência operacional compensará os investimentos necessários na infraestrutura de processamento de resíduos.
A Vale continua sob escrutínio constante, tanto pelos passivos passados quanto pela capacidade de execução dos novos projetos de sustentabilidade. O sucesso da estratégia dependerá da resiliência operacional e da manutenção da confiança dos stakeholders, em um contexto onde a transparência financeira sobre riscos climáticos tornou-se um diferencial competitivo essencial para a mineradora.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Capital Reset





