A estreia de Victorian Psycho, dirigida por Zachary Wigon, coloca o espectador diante de uma premissa que, embora promissora no papel, revela-se frustrante na tela. A trama acompanha Winifred Notty, interpretada por Maika Monroe, uma governanta com um histórico sombrio que chega à Ensor House para educar os filhos da família Pounds. Segundo a crítica publicada pelo veículo Little White Lies, o longa-metragem tenta fundir horror e comédia em um cenário de época, mas acaba sofrendo de uma escassez de ideias que compromete o resultado final.
O filme, baseado no romance homônimo de Virginia Feito, utiliza o tropo da protagonista com impulsos violentos ocultos, uma estrutura que inevitavelmente convida comparações com obras consagradas. Enquanto o material original busca explorar a psique de uma mulher em um ambiente vitoriano, a transposição cinematográfica parece incapaz de sustentar a tensão ou o humor ácido necessários para que o gênero funcione com eficácia.
O peso das influências literárias
A narrativa de Victorian Psycho carrega uma dívida evidente com o clássico American Psycho, de Bret Easton Ellis. Contudo, a transição da sátira do yuppismo americano para o contexto vitoriano não ocorre de forma orgânica. Enquanto a obra de Ellis utilizava o horror para dissecar o consumismo e a cultura corporativa, Wigon e Feito parecem incertos sobre qual alvo a sua sátira pretende atingir. Essa falta de direção temática faz com que a violência no filme surja como um recurso estético gratuito, em vez de uma ferramenta narrativa de peso.
O contexto histórico, que deveria servir como um espelho para as tensões de gênero da era vitoriana, é utilizado de maneira superficial. A tentativa de comentar a misoginia da época através das ações de Winifred acaba soando como um exercício de estilo que perde força ao longo da projeção. O resultado é uma obra que, embora tente ser provocativa, acaba se perdendo em clichês que enfraquecem a proposta de subversão do gênero.
Mecanismos de um horror esvaziado
O mecanismo de horror no filme apoia-se excessivamente nos impulsos de Winifred, mas a execução carece de inventividade. As cenas de violência, que deveriam ser os pontos de inflexão da trama, são descritas como pouco inspiradas. A tentativa de explicar a loucura da protagonista no terceiro ato é vista como um recurso preguiçoso, que reduz a complexidade da personagem a uma justificativa clichê, tornando a experiência do espectador previsível.
Vale notar que, apesar das falhas estruturais, o filme conta com elementos técnicos de qualidade. A cinematografia de Nico Aguilar e a edição de Dustin Chow e Lance Edmands trazem momentos de vivacidade visual que, infelizmente, não são suficientes para salvar o roteiro da sensação de repetição. A habilidade técnica, aqui, serve apenas para destacar o contraste com a falta de substância da história contada.
Implicações para o cinema de gênero
O fracasso relativo de Victorian Psycho em alcançar suas ambições levanta questões sobre o estado atual do horror-comédia. O gênero tem passado por uma fase de revisões constantes, onde a sátira social frequentemente se sobrepõe à construção de personagens. Quando a mensagem política — neste caso, a crítica à violência de gênero — é inserida de forma forçada, o filme corre o risco de se tornar uma caricatura de si mesmo, afastando o público que busca algo além da superfície.
Para o diretor Zachary Wigon, o projeto representa um desvio em uma carreira que anteriormente demonstrou originalidade com obras como The Heart Machine e Sanctuary. A recepção morna deste filme serve como um lembrete de que a transposição de temas complexos para o cinema exige uma curadoria rigorosa de ideias, sob o risco de que o produto final pareça datado antes mesmo de chegar ao público.
Perspectivas e incertezas
O que permanece incerto é se a falha reside na estrutura do romance de Virginia Feito ou na adaptação para as telas. A dificuldade em equilibrar o tom satírico com o horror puro é um desafio constante para cineastas contemporâneos, e Victorian Psycho ilustra os perigos de se apoiar em referências passadas sem oferecer uma nova perspectiva.
O futuro da carreira de Wigon dependerá de como ele processará esse passo em falso. Observar seus próximos passos será fundamental para entender se este foi apenas um erro de percurso ou uma mudança mais profunda em sua abordagem criativa. O cinema de horror continuará a ser um terreno fértil para a crítica social, desde que os criadores encontrem o equilíbrio entre a forma e a intenção.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





