A frota de robotáxis da Waymo que ganha as ruas de cidades como São Francisco, Los Angeles e Phoenix tem uma origem singular: China. Os veículos, customizados para a empresa da Alphabet, são fabricados pela Zeekr, uma marca do grupo Geely, e importados para os Estados Unidos, onde recebem o sistema de direção autônoma da Waymo. Já são centenas rodando, com planos de chegar a milhares.
O movimento acontece em um cenário de alta hostilidade comercial. Os EUA impõem tarifas de mais de 100% sobre veículos elétricos chineses, efetivamente bloqueando sua entrada no mercado consumidor. A estratégia da Waymo, portanto, não é apenas uma escolha de fornecedor, mas uma manobra que explora uma brecha regulatória para obter uma vantagem de hardware que seus concorrentes não têm.
O atalho regulatório
Duas grandes barreiras se aplicam a EVs chineses nos EUA. A primeira são as tarifas, que hoje totalizam 127,5%. A segunda é a "Connected Vehicle Rule", regra que proíbe a importação de veículos com sistemas de conectividade chineses por preocupações com espionagem. A Waymo navega por este campo minado com base em dois argumentos. Primeiro, o acordo com a Zeekr foi firmado em 2021, antes do acirramento geopolítico e das regras atuais. Segundo, e mais importante, a empresa afirma que a regra de conectividade não se aplica, pois ela instala seu próprio hardware e software de direção autônoma nos veículos, que chegam "crus" da China. Na prática, a Waymo importa o chassi e a carroceria, mas o "cérebro" do carro é americano.
Uma aposta de alto risco
A manobra permite à Waymo usar uma plataforma projetada do zero para o serviço de ride-hailing — mais espaçosa, acessível e durável que os carros de passeio adaptados anteriormente, como o Jaguar I-Pace. O custo também é um fator crucial. Mesmo com tarifas, o veículo final é consideravelmente mais barato que a solução anterior. Segundo reportagem da Fast Company, que cita fontes do setor, o custo total do veículo equipado é inferior a US$ 110 mil, contra cerca de US$ 200 mil do modelo da Jaguar. O problema é a instabilidade dessa fundação. O governo americano tem sido inconsistente na aplicação das regras, e um novo projeto de lei no Congresso poderia proibir a importação de qualquer veículo conectado fabricado na China, independentemente de quem fornece a tecnologia. Se aprovado, o projeto poderia tornar a frota da Waymo obsoleta da noite para o dia.
A estratégia da Waymo garantiu acesso a um hardware superior e mais econômico, em um mercado onde fabricantes chineses como BYD e Xiaomi são referência em tecnologia e custo, mas permanecem barrados ao consumidor final. A questão que fica é por quanto tempo essa janela de oportunidade, construída sobre uma interpretação das regras, permanecerá aberta. A aposta da Waymo é que sua liderança tecnológica e a natureza de seu serviço a protegerão das garras mais amplas da geopolítica sino-americana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





