Aos 82 anos e com seis décadas de carreira, o pintor William T. Williams mantém uma rotina que desafia a complacência. “Qualquer coisa que eu fiz ontem, tenho que esquecer”, disse ele em uma longa reportagem da publicação ARTnews. Esse espírito de reinvenção diária é a chave para entender não apenas suas telas vibrantes e texturizadas, mas também sua trajetória como um dos pilares silenciosos da arte afro-americana contemporânea.

A história de Williams não é apenas a de um artista em seu ateliê, mas a de um construtor de ecossistemas. Sua carreira demonstra que, para um artista negro de sua geração, a prática artística era inseparável da tarefa de criar as próprias estruturas de apoio que o mundo da arte lhes negava. De professor a mentor, passando por fundador de um dos programas de residência mais importantes dos Estados Unidos, sua influência se estende muito além das paredes das galerias.

A forma como dissonância

A obra de Williams é um estudo sobre materialidade e processo. Em seu ateliê, ele desenvolveu técnicas meticulosas, criando camadas de tinta com diferentes espessuras e tempos de secagem, usando álcool ou água para alterar o brilho e a textura. O resultado são superfícies que parecem rachadas, revelando “a construção das camadas” por baixo. É um formalismo que busca a quebra, não a perfeição. “Quero uma arte que não fique apenas parada na parede. Quero que seja o mais irritável possível”, afirma.

Essa busca por “dissonância” é sua resposta a uma pergunta fundamental: como um pintor abstrato pode abordar questões sociais e emocionais sem recorrer à figuração ou à narrativa explícita? Para Williams, a resposta está na manipulação da cor e da forma para evocar sentimentos. Ele explora como um quadrado de cor pode parecer flutuar à frente, recuar para trás ou perfurar a tela, criando uma tensão visual que espelha as complexidades que ele escolhe não pintar literalmente. É uma abstração que carrega o peso da experiência, sem precisar contá-la.

O artista como instituição

Talvez a contribuição mais duradoura de Williams para a arte americana não esteja em uma tela, mas em uma instituição. Em 1968, recém-saído do mestrado em Yale, ele escreveu uma proposta para um programa de residência artística. Sua preocupação era pragmática: “O que acontece depois da escola?”. Ele identificou a ausência de uma infraestrutura de apoio para artistas de minorias e desenhou um plano que conectava ateliês, patronos, críticos e museus.

Sua proposta tornou-se a espinha dorsal do programa de residência do Studio Museum in Harlem, implementado em 1969 e que, desde então, impulsionou as carreiras de nomes como Kerry James Marshall, Kehinde Wiley e Simone Leigh. Paralelamente, Williams lecionou por quase 40 anos no Brooklyn College, influenciando gerações de artistas, como Nari Ward. Sua atuação no coletivo Smokehouse Associates, que pintou murais abstratos em Harlem no final dos anos 60, também reforçou sua crença de que a arte não precisa ser figurativa para ter impacto comunitário e social.

Essa dupla jornada, entre a prática solitária do ateliê e a construção coletiva de oportunidades, define o legado de Williams. Sua amizade com os artistas Melvin Edwards e Sam Gilliam, com quem dividiu por 50 anos o desafio de afirmar a abstração como um campo legítimo para artistas negros, era parte desse trabalho. Em seu estúdio, um memorial de pincéis secos marca a passagem de amigos e colegas. Cada pincel é um testamento de uma vida dedicada a pintar, mas também a garantir que outros pudessem fazer o mesmo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews