Wolfgang Puck, o chef de 76 anos mundialmente reconhecido, encontra-se diante de um dilema que afeta grande parte dos proprietários de empresas familiares: como transferir o comando sem comprometer o legado construído ao longo de décadas. Em entrevista recente, Puck e seu filho, Byron Lazaroff-Puck, presidente do Wolfgang Puck Fine Dining Group, discutiram os bastidores dessa transição geracional. Embora o chef ainda não tenha planos de se afastar integralmente, a ascensão de Lazaroff-Puck — que iniciou sua trajetória na empresa como lavador de pratos — sinaliza uma mudança estrutural necessária para a continuidade do negócio.
Este movimento não é apenas uma questão de sucessão familiar, mas um exemplo prático da pressão que recai sobre o ecossistema de pequenas e médias empresas (PMEs). Segundo dados da McKinsey, aproximadamente 6 milhões de PMEs enfrentarão transições de propriedade até 2035 devido à aposentadoria da geração baby boomer. O dado alarmante, contudo, reside no fato de que apenas 1 milhão dessas empresas são consideradas viáveis para venda, o que coloca a vasta maioria em risco iminente de encerramento caso não haja um plano de sucessão robusto.
A complexidade da sucessão familiar
A transição em empresas familiares carrega uma carga emocional e operacional única. Para muitos fundadores, o negócio é uma extensão de sua própria identidade. A relutância em pressionar os filhos a assumirem o comando é um sentimento comum, muitas vezes motivado pelo desejo de poupar a próxima geração do desgaste inerente à gestão de um negócio próprio. No caso de Puck, o processo foi orgânico, com o filho encontrando seu próprio caminho até o restaurante antes de assumir papéis executivos.
Para o mercado, a lição é clara: a falta de planejamento sucessório é uma vulnerabilidade estratégica. Quando o fundador é a face pública da marca, a transição exige mais do que apenas a transferência de ações; exige a transferência de autoridade e a construção de uma nova governança. Empresas que não formalizam esse processo correm o risco de ver seu valor de mercado evaporar no momento em que o fundador decide se retirar.
O novo cenário para as PMEs
O ambiente econômico atual oferece uma perspectiva curiosa para quem decide assumir empresas familiares. Em um cenário onde grandes corporações estão em uma cruzada de eficiência impulsionada por cortes de pessoal e automação, as PMEs — especialmente aquelas com operações resilientes e menos dependentes de processos puramente digitais — podem oferecer um porto mais seguro. Existe, inclusive, um movimento crescente de profissionais qualificados, como graduados em MBAs, que buscam adquirir pequenas empresas para operá-las, suprindo a lacuna deixada por famílias que não têm sucessores interessados.
Essa dinâmica de busca por empresas estabelecidas está se tornando uma alternativa viável para manter a vitalidade do setor privado. Como as PMEs representam cerca de 99,9% das empresas nos Estados Unidos e empregam quase metade da força de trabalho do setor privado, a falha em gerir essas transições pode ter impactos econômicos amplos, resultando em perda de empregos e descontinuidade de serviços essenciais.
Implicações para o ecossistema
O desafio de Puck ecoa em mercados globais, inclusive no Brasil, onde a cultura de empresas familiares é predominante. A profissionalização da gestão é, muitas vezes, o único caminho para evitar que o negócio morra com o seu fundador. Reguladores e instituições financeiras começam a observar com mais atenção a longevidade dessas empresas, pois a sucessão mal planejada não afeta apenas os herdeiros, mas toda a cadeia de fornecedores, funcionários e clientes que dependem da operação.
A transição de gerações em empresas de capital fechado exige, portanto, um olhar técnico sobre governança. A entrada de sucessores, seja por laços sanguíneos ou por aquisições via fundos de busca, precisa ser acompanhada de uma estrutura que permita a manutenção do core business enquanto se adapta às novas demandas de mercado. A incerteza que paira sobre as PMEs é, em última análise, um problema de gestão de ativos intangíveis.
O futuro da sucessão
O que permanece em aberto é a capacidade real dessas empresas em realizar a transição. Quantos negócios familiares conseguirão se transformar em estruturas profissionais antes que o fundador se aposente? A observação dos próximos anos será crucial para entender se as pequenas empresas conseguirão se reinventar através de novas lideranças ou se o fechamento será o destino inevitável para a maioria.
A trajetória de Wolfgang Puck oferece um vislumbre de que, com tempo e preparação, a continuidade é possível. Entretanto, para a maioria dos proprietários, o tempo é o recurso mais escasso. A decisão de passar o bastão não é apenas um ato de sucessão, mas um imperativo de sobrevivência que definirá a estrutura do mercado na próxima década.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





