A forma como o café é apreciado tem passado por transformações significativas, e um dos campos de batalha dessa evolução é a prateleira de xaropes em cafeterias. O que antes era um mero complemento para bebidas doces, hoje se tornou um símbolo de qualidade — ou da falta dela — para uma parcela crescente de consumidores. A ascensão dos xaropes industrializados, como os de marcas dominantes como Torani e Monin, deu lugar a um movimento de valorização do "feito em casa", transformando a escolha entre um xarope pronto e um artesanal em uma verdadeira guerra cultural no universo do café.

Nas redes sociais, a crítica a xaropes pré-fabricados é explícita. Vídeos no TikTok e postagens em outras plataformas mostram a indignação de consumidores ao encontrarem prateleiras repletas de marcas como Torani em cafeterias que se autodenominam "especializadas". A legenda de um vídeo viral, com mais de 82.000 curtidas, expressa claramente o receio: "Eu sei que meu latte não vai ser bom". Essa desconfiança se estende a outras marcas, com consumidores alegando que xaropes como os da Monin soam "químicos". Para essa audiência, o uso de xaropes industrializados é um "sinal vermelho", indicando que o estabelecimento pode estar cortando custos em detrimento da qualidade, algo inaceitável quando se paga um valor elevado por uma bebida.

O purismo dá lugar ao maximalismo

A percepção é que xaropes de massa se tornaram sinônimos de grandes redes e corporações, instituições impessoais que muitos consumidores buscam evitar ao optarem por estabelecimentos menores e independentes. O movimento "terceira onda" do café, que valorizava o purismo, o grão de origem única e o preparo meticuloso para ser apreciado sem adições, parece ter cedido espaço a uma nova estética: a do "hiperflavor", termo cunhado pelo New York Times. Essa tendência celebra a adição de perfis de sabor complexos e inesperados a alimentos familiares, e o café não ficou de fora. A precisão e o cuidado antes dedicados ao café preto agora se voltam para a criação de bebidas doces e elaboradas, comparáveis à montagem de uma sobremesa por um chef confeiteiro ou à construção de um coquetel complexo por um bartender.

A oportunidade dos xaropes artesanais

Para cafeterias independentes, a demanda por xaropes e outros "embellishments" (acabamentos) se transformou em uma oportunidade de ouro. Muitos donos de estabelecimentos, que inicialmente planejavam um foco mais purista, viram-se compelidos a atender aos pedidos dos clientes por bebidas mais elaboradas. Carrie e Dennis Medina, fundadores da Room Service em Ventura, Califórnia, inicialmente imaginavam um cardápio sem xaropes. Contudo, a insistência dos clientes os levou a oferecer de 10 a 12 xaropes feitos internamente, além de "cream tops" (coberturas cremosas). O processo para criar um xarope de abóbora PSL, por exemplo, leva dois dias, envolvendo assar a abóbora e cozinhá-la com especiarias. "Se o mercado exige xaropes e coberturas, queríamos garantir que a intenção e o foco na qualidade que aplicamos aos nossos grãos de café também se estendessem a eles", afirma Carrie.

Implicações para o mercado e o consumidor

Essa mudança de paradigma tem implicações claras para o mercado. Enquanto grandes redes como a Starbucks popularizaram o conceito de bebidas personalizáveis e complexas através de aplicativos e cultura de "hacks", as cafeterias independentes buscam se diferenciar oferecendo uma qualidade superior e um toque local. Michael Smith, proprietário da Trust Coffee Co. em Ohio, observa que muitos de seus clientes eram antes fiéis à Starbucks, mas agora buscam "algo mais local". A intencionalidade por trás de cada ingrediente se torna um diferencial crucial, especialmente com o aumento dos preços. Consumidores dispostos a gastar mais em uma bebida de luxo querem ter a certeza de que cada componente foi preparado com cuidado. A produção artesanal de xaropes, muitas vezes vista como um símbolo de autenticidade e qualidade, permite que pequenos negócios elevem seu patamar e compitam com as grandes corporações, oferecendo uma experiência única e mais genuína. A iniciativa da cafeteria Little Joy, que compartilha suas receitas de xaropes e bebidas com outros negócios independentes, reforça essa ideia de solidariedade e de "elevar o nível" para todo o setor.

Perguntas em aberto

Apesar do crescente movimento em prol dos xaropes artesanais, a conversa ainda levanta questões importantes. Sabrina Kaylor, fundadora da Bizarre Coffee, aponta que, para muitos negócios, a adoção de xaropes feitos em casa é também uma estratégia de marketing. Ela observa que, embora 90% de suas bebidas utilizem xaropes caseiros, um de seus produtos mais vendidos ainda depende de xaropes engarrafados, dada a complexidade e o investimento de mão de obra que a produção totalmente artesanal demandaria. Isso levanta a questão de até que ponto a autenticidade é um requisito absoluto ou um diferencial desejável. Além disso, a pressão por "feito em casa" pode desencorajar pequenos empreendedores que ainda estão aprendendo e buscando otimizar seus processos. A tendência "hiperflavor" e a busca por autenticidade continuarão a moldar o futuro das cafeterias, mas o equilíbrio entre a produção artesanal e a eficiência operacional permanece como um desafio a ser observado.

A busca por autenticidade e qualidade em cada gole de café parece ter encontrado nos xaropes artesanais um novo foco. O que antes era um detalhe secundário, hoje define a identidade de muitos estabelecimentos e a experiência do consumidor, sinalizando uma mudança profunda na cultura do café. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Eater