Os fundos de recebíveis imobiliários, conhecidos como fundos de papel, tornaram-se a classe preferida da XP para o segundo semestre de 2026. Segundo Marx Gonçalves, head de Fundos Listados da XP Research, a estratégia reflete a necessidade de cautela em um mercado marcado pela volatilidade eleitoral, pressões inflacionárias e incertezas geopolíticas globais.

Embora o IFIX tenha mantido terreno positivo no ano, com alta de cerca de 2%, a XP argumenta que a estrutura desses fundos oferece uma proteção diferenciada. A tese editorial sustenta que a resiliência operacional desses veículos permite navegar melhor em períodos de juros elevados, mantendo a consistência na distribuição de rendimentos.

A lógica da resiliência em crédito

O diferencial dos fundos de papel reside na sua natureza atrelada a Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). Com uma duration média próxima de quatro anos, esses ativos sofrem menos com a marcação a mercado do que outras categorias de FIIs. A análise da XP indica que essa característica reduz a volatilidade anualizada para cerca de 7,5%, enquanto fundos de tijolo e fundos de fundos (FOFs) apresentam oscilações superiores, na casa de 9,7% e 12%, respectivamente.

Além disso, a baixa correlação com ativos globais — estimada em 8% com a renda variável e 3% com a renda fixa internacional — blinda o investidor local contra choques externos. Em um cenário de taxas de juros pressionadas mundialmente, essa descorrelação torna-se um ativo estratégico para a preservação de patrimônio em carteiras brasileiras.

Critérios de seleção e risco

A recomendação da XP não é um cheque em branco para o setor de papel. Gonçalves enfatiza a aversão a operações "high yield", que carregam riscos de crédito mais elevados. A preferência recai sobre fundos com devedores de alta qualidade e garantias reais, como a alienação fiduciária.

Um indicador central na análise é o LTV (Loan-to-Value) em torno de 50%. A lógica é garantir que, mesmo em cenários de execução de garantias, o investidor tenha uma margem de segurança robusta. A busca por imóveis estabilizados e alavancagem conservadora é o filtro que separa as oportunidades de valor dos riscos excessivos.

Oportunidades no IPCA

O mercado de FIIs de papel apresenta uma divisão clara entre os indexados ao CDI e ao IPCA. Enquanto os primeiros mantêm rendimentos elevados, os fundos atrelados à inflação estão sendo negociados com desconto, apresentando uma relação preço sobre valor patrimonial próxima de 0,93 vez.

A XP identifica nesse desconto de 7% uma janela de entrada, sustentada pela expectativa de que a inflação continue pressionada, mantendo os rendimentos desses fundos em patamares resilientes. A estratégia, contudo, exige monitoramento constante, dada a natureza dinâmica da inflação brasileira.

Perspectivas e incertezas

O cenário para o próximo semestre permanece condicionado à evolução da política monetária e ao comportamento da inflação. A capacidade de os fundos de papel manterem suas taxas de ocupação e o fluxo de pagamentos dos CRIs será o principal termômetro para os próximos meses.

O mercado aguarda, ainda, a reação dos investidores institucionais aos dados de distribuição de dividendos. A volatilidade esperada no período eleitoral pode testar a resiliência dessas teses de investimento, exigindo disciplina na alocação e foco na qualidade dos ativos subjacentes.

O movimento da XP sinaliza uma mudança de rota, priorizando a segurança do crédito frente à incerteza do ciclo econômico, mas a eficácia dessa estratégia dependerá diretamente da qualidade da curadoria de cada gestora.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney