Pedro Zemel assumiu o comando da Zamp há pouco mais de um ano com a missão de reverter um cenário de fragmentação e ineficiência operacional. A holding, que detém as operações do Burger King, Popeyes, Starbucks e Subway no Brasil, enfrentava desafios distintos em cada bandeira, desde as sequelas do pós-pandemia até as complicações decorrentes da recuperação judicial da SouthRock, antiga controladora de parte dos ativos. Segundo reportagem do Brazil Journal, a tese central da nova gestão é simples: o crescimento do EBITDA depende da qualidade da experiência do consumidor no ponto de venda.
Para viabilizar essa virada, a Zamp abandonou o modelo centralizado que tratava todas as marcas como extensões do Burger King. A estrutura foi reorganizada para conferir autonomia a cada bandeira, com presidentes dedicados responsáveis por produto, operação e crescimento individual. As funções corporativas, como tecnologia e finanças, foram mantidas como suporte compartilhado, mas a execução agora é descentralizada. Essa mudança de governança visa dar a cada marca a agilidade necessária para responder às demandas específicas de seu público-alvo.
A virada operacional nas lojas
A estratégia de Zemel priorizou o investimento em pontos fundamentais de atendimento em vez de buscar cortes de custos imediatos. Um teste realizado na Zona Norte de São Paulo, envolvendo 30 unidades do Burger King, demonstrou a eficácia dessa abordagem. Com reforço de equipe, manutenção rigorosa de equipamentos e treinamento, as lojas selecionadas superaram a média de crescimento da rede em 25%. O sucesso desse projeto piloto validou a tese de que a execução básica — o chamado "arroz com feijão" — é o motor principal para a recuperação da rentabilidade.
Além da operação, a Zamp realizou ajustes estratégicos no portfólio de produtos de todas as suas marcas. No Starbucks, a adaptação do cardápio ao paladar brasileiro e a revisão do blend de café foram movimentos cruciais. No Subway, a aposta recaiu sobre a saudabilidade e o aumento do teor proteico. Tais mudanças já refletem nos indicadores de vendas, com o Burger King registrando crescimento de 6% no conceito same-store sales e o Popeyes alcançando 25,4% no primeiro trimestre, segundo dados da companhia.
O desafio da escala e o longo prazo
Com a operação estabilizada, a Zamp iniciou um ciclo de expansão, planejando a abertura de 70 lojas próprias este ano, com um aporte total de R$ 270 milhões. O otimismo da gestão é sustentado pelo apoio do Mubadala Capital, que mantém uma visão de longo prazo para o ativo, mesmo em um ambiente de juros elevados. Zemel enfatiza que, no momento, as métricas de sucesso são o crescimento do faturamento e a geração de EBITDA, deixando o lucro líquido como um objetivo para uma etapa posterior de maturação dos investimentos.
O cenário competitivo, contudo, impõe novos desafios. A popularização de medicamentos para emagrecimento, como os da classe GLP-1, é monitorada pela empresa, embora Zemel não enxergue uma ameaça estrutural imediata ao setor de fast food. A perspectiva da companhia é que a alimentação fora de casa permaneça como um hábito de socialização e indulgência, exigindo apenas uma adaptação na comunicação dos benefícios nutricionais dos produtos para atender às novas demandas dos consumidores.
Tensões trabalhistas e produtividade
Um ponto de atenção sensível para o setor de alimentação é a possível alteração na jornada de trabalho 6x1. Zemel reconhece que um impacto operacional é inevitável, mas busca mitigar os riscos através da experimentação de modelos mais flexíveis, como as jornadas 5x2 ou 12x36. O objetivo é reduzir o alto turnover, que historicamente penaliza a produtividade e a qualidade do serviço no setor. A retenção de talentos é vista, portanto, como um componente estratégico para a redução de custos invisíveis na operação.
As incertezas sobre a regulação do trabalho e o comportamento do consumidor em um cenário de mudanças dietéticas continuam no radar. A capacidade da Zamp de equilibrar a expansão acelerada com a manutenção da qualidade operacional será o fiel da balança para os próximos trimestres. O mercado aguarda para ver se a autonomia conferida às marcas será suficiente para sustentar o ritmo de crescimento e a rentabilidade almejada pelo controlador.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





