A economista Zeina Latif apresentou uma visão pragmática sobre o ajuste fiscal brasileiro, argumentando que a estratégia mais viável não reside em cortes drásticos de despesas, mas sim na implementação de medidas que controlem o ritmo de crescimento dos gastos públicos. Em suas declarações, Latif destacou que a rigidez orçamentária e a resistência política a reformas amplas tornam uma abordagem gradual e pontual mais eficaz.
Latif enfatizou que o Brasil acumula distorções significativas na estrutura de despesas e benefícios. A solução, segundo ela, não é a eliminação completa de programas, mas a revisão de políticas públicas para assegurar que os recursos sejam direcionados de forma mais eficiente. A economista ressaltou que "não existe cortar gastos no Brasil" no sentido de uma redução generalizada, mas sim de "conter o crescimento das despesas". Mecanismos como a indexação de benefícios ao salário mínimo, vinculações de despesas à arrecadação e mudanças demográficas contribuem para o aumento automático dos gastos, exigindo, portanto, uma revisão cuidadosa do desenho dessas políticas.
Desafios no BPC e abono salarial
A economista apontou o abono salarial e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) como exemplos de programas que poderiam passar por ajustes. No caso do abono salarial, Latif questionou sua focalização, uma vez que atende indivíduos já inseridos no mercado formal de trabalho. Embora reconheça a dificuldade política em eliminar o programa, ela defende a discussão de alterações em seu desenho, sugerindo que "dá para reduzir" o benefício. Quanto ao BPC, destinado a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, Latif observou que uma reforma completa seria desafiadora, mas ajustes pontuais para aperfeiçoar a política são possíveis.
A lógica da revisão gradual
A lógica defendida por Zeina Latif é a de revisar políticas públicas mal focalizadas ou com distorções, em vez de buscar a eliminação integral de benefícios. Essa abordagem permite uma estratégia de ajustes simultâneos em diversas frentes, mesmo que cada mudança individual seja limitada. O mesmo raciocínio pode ser aplicado à estrutura tributária, que também apresenta distorções e benefícios cuja revisão poderia melhorar a eficiência econômica do país. A economista alertou para a urgência da situação fiscal, defendendo que o presidente Lula encampe o ajuste.
Implicações para a política fiscal
A perspectiva de Latif sugere que o governo brasileiro terá que navegar por um cenário complexo, onde a necessidade de controle fiscal coexiste com a pressão por manutenção de programas sociais. A estratégia de ajustes pontuais pode ser uma forma de mitigar a resistência política, mas levanta questões sobre a profundidade e o impacto real dessas mudanças no médio e longo prazo. A focalização e a eficiência dos gastos públicos se tornam, assim, os eixos centrais da discussão fiscal.
Perguntas em aberto
Fica em aberto a questão de quão eficaz será essa abordagem gradual para reverter a trajetória de crescimento das despesas públicas a longo prazo. A capacidade do governo em identificar e implementar os ajustes necessários, bem como a receptividade da sociedade e do Congresso a essas mudanças, serão cruciais para o sucesso da estratégia. A discussão sobre a sustentabilidade fiscal brasileira continua a exigir atenção e análise contínua.
A análise de Zeina Latif oferece um roteiro para o debate fiscal, priorizando a contenção do crescimento dos gastos em vez de cortes generalizados, com foco em revisões estratégicas de políticas públicas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





