A Zyla, que há menos de dois anos iniciou suas operações como uma assessoria de corrida via WhatsApp, evoluiu para um aplicativo completo de treinos com inteligência artificial, contando atualmente com 144 mil atletas ativos. Após atingir o ponto de equilíbrio financeiro em janeiro, a empresa agora almeja se firmar como uma concorrente direta do Strava, a popular plataforma de registro de atividades físicas entre atletas amadores. Curiosamente, o impulso para essa nova direção competitiva partiu da própria Strava. A Zyla utilizava integrações com a plataforma americana, mas ao se aproximar do limite de 50 mil conexões permitidas, um pedido para expandir essa capacidade foi negado. "A nossa intenção era continuar usando o Strava como parceiro, mas como eles nos bloquearam, sobrou a opção de virar concorrente", explicou Guilherme Monteiro, CEO da Zyla, em entrevista ao Startups. Essa situação levou ao desenvolvimento de um GPS próprio, lançado recentemente, que permite à startup controlar o registro das atividades dos usuários, algo que antes dependia de integrações com Strava, Garmin e Apple Watch.

O nicho dos clubes de corrida

Mais do que disputar o mercado de aplicativos de corrida em geral, a Zyla direciona sua estratégia para um segmento específico: os clubes de corrida. A proposta é centralizar em sua plataforma serviços que hoje são dispersos por diversos aplicativos. "Hoje os clubes de corrida usam o WhatsApp para criar grupos de conversas, criam links de pagamento na Pagar.me, lançam desafios no GymRats, e têm que registrar os treinos da galera no Strava. A gente sente que existe espaço para nos tornarmos um ponto de controle, oferecendo tudo para que esses running clubs consigam gerenciar o negócio deles", detalha Monteiro. Atualmente, a plataforma da Zyla já oferece planilhas de treinos personalizadas, espaços de conversa entre usuários e desafios patrocinados por marcas. Em breve, o aplicativo introduzirá espaços exclusivos para membros, onde será possível criar eventos, desafios e grupos de conversa focados em cada clube, reforçando a ideia de um ambiente privado e voltado para a gestão desses grupos.

Gestão e monetização como diferenciais

Samy Waintraub, COO da Zyla, ressalta que os clubes de corrida são um motor fundamental no mercado atual, mas enfrentam desafios de gestão e monetização que ainda não são plenamente atendidos pelas soluções existentes. "Eles têm um ativo muito importante, que é a comunidade, as pessoas, mas falta saber como e onde cobrar, o que cobrar", afirma Waintraub. A estratégia da Zyla, diferentemente de tentar substituir a experiência oferecida pelo Strava, é fornecer a infraestrutura para que cada clube possa construir e fortalecer sua própria marca dentro do aplicativo. A ideia é que a identidade visual do clube, e não da Zyla ou do Strava, seja o foco principal quando um atleta compartilha seu treino nas redes sociais, por exemplo. O objetivo é ser o espaço catalisador para o crescimento dessas comunidades.

Plano de crescimento e internacionalização

A empresa projeta alcançar 1 milhão de atletas ativos até o final de 2026 e uma Receita Recorrente Anual (ARR) de cerca de R$ 10 milhões a partir de 2027, quando o novo posicionamento como plataforma completa deve estar consolidado. "A gente ainda não tem muita ideia do potencial de go-to-market desse novo formato. Só espera que seja muito grande", pondera Waintraub. A principal fonte de receita da Zyla provém de uma parceria de distribuição com o Wellhub, aplicativo de benefícios corporativos, seguida pelas assinaturas próprias da plataforma. Operando com lucro desde fevereiro, a startup, que levantou cerca de R$ 500 mil de investidores-anjo em junho de 2025, não planeja captações externas no momento. Com uma equipe enxuta de 12 funcionários, a Zyla visa manter essa estrutura enquanto persegue suas ambiciosas metas de crescimento, que incluem a expansão internacional. A partir do primeiro trimestre de 2027, com o apoio do Wellhub, a empresa pretende iniciar sua internacionalização, com foco inicial nos Estados Unidos, atendendo a um pedido da parceira para adaptar o aplicativo ao mercado externo.

Desafios e oportunidades no mercado global

A expansão para fora do Brasil, contudo, é vista como um processo complexo que vai além da simples tradução do aplicativo. "Não basta traduzir o aplicativo, a questão é traduzir o que gera valor. Se formos expandir para os Estados Unidos, vamos precisar entender o mercado de running clubs americano e replicar a tese", explica Waintraub. A concorrência com o Strava, reconhecem os fundadores, é um desafio significativo, dada a magnitude da plataforma americana. No entanto, eles identificam um espaço considerável, especialmente no Brasil, com nuances específicas que a Zyla acredita poder explorar para impulsionar seu crescimento. A capacidade de oferecer aos clubes de corrida a possibilidade de ter sua própria marca integrada ao aplicativo é vista como um diferencial chave. A Zyla busca ser o ambiente onde essas comunidades podem prosperar, consolidando sua proposta de valor em um mercado cada vez mais competitivo.

Com reportagem de Brazil Valley

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