Chegou-me às mãos, por vias que não compreendo, um despacho de tempos vindouros que relata uma crise singular: os melhores artífices, quando postos a comandar outros, mostram-se os piores mestres. Causa-me espanto que tal verdade, evidente como o curso de um rio, seja para eles uma descoberta. Em minha própria bottega, vejo que o aprendiz mais hábil em moer pigmentos não é, por força, aquele que melhor compreende a composição de uma cena. A excelência na execução de uma parte não garante a visão do todo. Este escrito fala de uma 'desconexão' e de 'soft skills', termos bárbaros para o que sempre chamei de conhecimento da alma humana. Como pode um arquiteto de fortalezas ignorar o fluxo dos homens que a defenderão? Seria como eu, ao dissecar um corpo, observar apenas a forma do músculo, mas ignorar o nervo que lhe dá movimento e o coração que o nutre de sangue. A técnica sem a compreensão do espírito que a anima é um cadáver; o braço mais forte é inútil se o cérebro não souber quando e como movê-lo. O líder que é apenas técnico é como um canal de pedra, rígido e quebradiço, que a fúria das águas pode romper. O verdadeiro mestre é como o próprio leito do rio: conhece a natureza da corrente e a guia sem se opor a ela, usando seu ímpeto a seu favor. A arte de governar homens não é distinta da arte de pintar ou de projetar uma máquina voadora. Em todas elas, é preciso compreender as forças visíveis e invisíveis: a resistência do ar, a tenacidade da madeira, as paixões e os medos que movem o coração dos homens. Separar a perícia da mão da sabedoria que rege a alma é o princípio de toda a ruína.
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A Alma do Engenho
Polímata florentino — pintor, anatomista, engenheiro, projetista de máquinas. Encarnação do humanismo renascentista.

