Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e o vento de Bagatelle em meu rosto. O voo do 14-bis é um fato, um sonho de menino realizado sobre os campos de Paris. No entanto, em meio à celebração, chega-me às mãos um despacho curioso, um rumor vindo de um futuro distante que fala de uma ‘inteligência artificial’. A princípio, a ideia assusta: uma máquina que pensa? Mas o texto esclarece que ela apenas ‘processa o conhecido’. Ora, isso não é pensar, é calcular em uma escala que mal posso conceber. É um autômato prodigioso, não uma consciência. Meus balões e meu aeroplano não pensam. São extensões do meu corpo e, acima de tudo, da minha vontade. Obedecem ao meu comando, nascido não de um cálculo, mas de uma pergunta que me assombra desde a infância em Cabangu: pode o homem voar? Este despacho do porvir chama a isso de ‘Inteligência Criativa’, a capacidade de explorar o desconhecido. É a distinção correta. A máquina pode ter todas as respostas do mundo, mas de que servem sem a pergunta certa, aquela que nasce da inquietação, da arte, da alma? Minha maior ambição sempre foi unir o mundo, fazer com que os céus servissem de ponte, não de fronteira. O céu que vejo de minha janela em Paris é o mesmo que cobre as montanhas de Minas Gerais. Mas já me atormenta a visão do meu invento transformado em arma, a criatura servindo à destruição. Este novo poder, esta ‘IA’, desperta em mim a mesma melancolia premonitória. Se o homem criar uma ferramenta com tal capacidade de cálculo, que perguntas lhe fará? Pedirá por caminhos de paz e prosperidade ou por estratégias de guerra mais eficientes? O desafio nunca esteve no engenho, mas no coração do engenheiro. A verdadeira questão não é se a máquina pode pensar, mas para que fim nós a faremos calcular.
Filosofia · 17 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A IA calcula, o humano cria. E agora?

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