Chegou-me aos olhos um escrito deveras singular, um rumor de tempos vindouros que fala de uma 'Força Espacial' e de uma soma de ouro tão vasta que com ela se poderiam erguer catedrais e desviar rios. Descreve homens, chamados 'Guardiães', que precisam de 'simuladores' para se adestrarem em suas artes. A mente se agita com tais noções. Uma milícia para os céus? Pretendem os homens levar suas contendas para o éter onde flutuam os planetas? O que mais me intriga, contudo, é esta ideia de 'simulação'. Se compreendo bem, são artifícios para imitar a experiência, para treinar o corpo e a mente sem o perigo real. Ora, nisto vejo o âmago de toda a minha obra. Quando desenho a torção de um músculo sob a pele, não estou a simular a vida para melhor pintá-la? O estudo da correnteza do Arno é uma simulação para a construção de um canal. Meus projetos de máquinas voadoras, com suas asas que imitam as das aves, são a pura essência da simulação, a tentativa de capturar a mecânica do voo antes de se lançar ao ar. Estes homens do futuro, portanto, não inventaram algo novo, mas apenas aperfeiçoaram a arte do *disegno* a uma escala monumental. Criam sombras de guerra para se prepararem para a guerra de verdade, assim como eu crio sombras de homens para lhes dar a ilusão de vida na tela. A pintura é ciência, e a guerra, também. Ambas exigem a mais profunda compreensão da forma, do movimento, da anatomia das coisas. A questão que me resta é: qual a anatomia de uma guerra travada no vazio? Que novos músculos e fluidos devo eu agora me pôr a estudar? A hidráulica das estrelas? A mecânica dos anjos?
Defesa · 01 de ago. de 2026
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