Chega-me aos ouvidos um rumor deveras singular, um despacho de tempos futuros que me confunde e fascina. Fala de um homem, Ayrton Senna, um piloto de tal perícia que sua fama perdura. E de que modo se celebra sua memória? Não com um monumento equestre em bronze, nem com um afresco em capela. Celebra-se com a recriação de seu elmo, o invólucro de seus pensamentos em velocidade, por meio de novecentas e trinta e uma pequenas peças, como se fossem vértebras de um engenho. O todo, pois, é compreendido pelas partes. É a própria anatomia da glória, dissecada para o estudo. Aquele que reconstrói o elmo, peça por peça, não estaria ele também a reconstruir o homem, a compreender a mecânica de sua grandeza? Estes artífices, que se intitulam LEGO, criam não uma única obra para um patrono, mas milhares de pequenos quebra-cabeças que permitem a qualquer um participar do ato de recordar. É uma nova forma de pintura, uma escultura em que a mão do mestre apenas fornece o mapa, e a do aprendiz executa a forma. O elmo, que fende o ar como o bico de um falcão, é o ponto onde a arte e a ciência do movimento se encontram. A velocidade, como a água, tem seus próprios turbilhões e correntes, e este Senna deve ter sido um mestre em lê-los. Pergunto-me que tipo de máquina ele conduzia. Seria um pássaro mecânico, um carro que corre sem cavalos? A pequena estatueta que acompanha o conjunto, um homúnculo do herói, sugere uma veneração que transcende o mero ofício. O legado deste homem não é pedra, mas ideia, uma que se pode montar e desmontar, como um teorema.
Marketing · 21 de ago. de 2026
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