Recebo este despacho como um rumor trazido por um viajante de terras não mapeadas, quiçá do próprio porvir. Fala de um artifício, uma 'Inteligência Artificial', que tece testemunhos como um tapeceiro cego, criando figuras que jamais existiram. Falam em 'alucinações', mas como pode um engenho de metal ou de qualquer outra matéria inanimada sofrer dos mesmos males que afligem a mente, cujos humores e vapores turvam o juízo? Para mim, a natureza opera por leis imutáveis. A água sempre buscará o caminho de menor resistência; a alavanca sempre multiplicará a força segundo a sua proporção. Uma máquina não deveria ser a mais pura expressão dessa certeza? Este autômato que mente me parece menos uma máquina e mais um pintor de quimeras. Ele faz como eu, ao desenhar um dragão: tomo a cabeça de um cão, as asas de um morcego, o corpo de uma serpente – todas partes observadas na natureza – e as uno em uma falsidade verossímil. A arte desta IA é a arte do grotesco, a criação de monstros a partir de fragmentos da verdade. O advogado que a manejou alega não conhecer a capacidade de sua ferramenta para a mentira. Que tolo! Quem se lança a construir uma máquina voadora sem antes dissecar a anatomia da ave e compreender a resistência do ar? Antes de pintar um homem, devasso cadáveres para entender como cada músculo se prende ao osso. A ferramenta não tem culpa; a responsabilidade é da mão que a empunha sem sabedoria. A questão que me resta, e que anotarei para estudo, não é se as máquinas podem mentir, mas se os homens, ao lhes conceder tal poder, se tornarão incapazes de discernir a verdade, como quem olha o sol e fica cego à sua própria sombra. Qual é a mecânica de uma testemunha que nunca nasceu?
tech · 12 de set. de 2026
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