Chega-me um rumor de tempos ainda não nascidos, uma fábula sobre homens que colocam olhos mecânicos nos céus. Falam de um tal LatConnect 60, da longínqua Austrália, que se une a gentes da Índia para construir e lançar um desses artefatos, um satélite. O engenho não voa como meu pássaro, batendo asas no ar; ele paira para além da mais alta nuvem, como um novo astro, para observar o corpo do mundo. Esta 'observação da Terra' é a forma mais elevada de perspectiva, um ponto de vista que nem o mais alto campanário pode oferecer. Vejo nisto a pintura e a anatomia unidas. Assim como disseco os músculos de um cadáver para entender o movimento, esta máquina parece dissecar a própria face do planeta — seus rios como veias, suas florestas como pulmões. E a 'análise de dados' que mencionam? É o trabalho da mente sobre o que o olho capta. É encontrar o 'moto', a alma, nos padrões da natureza. É a mesma ciência que me move a estudar a turbulência da água ou o sorriso que se forma e se desfaz. O que me espanta é a mecânica de tal empresa. Como lançar este peso contra a força que nos prende ao chão? Seria um parafuso aéreo de imensa potência? Um fogo controlado, mais poderoso que o dos canhões? E esta colaboração entre nações tão distantes... é uma forma de hidráulica do conhecimento, onde o saber flui por canais invisíveis, irrigando mentes em diferentes continentes para gerar um fruto comum. Dizem que o fim é 'criar valor', mas o verdadeiro valor está na visão, em compreender a grande máquina do mundo. Devo esboçar este olho celeste. Preciso entender a anatomia de seu voo e a fisiologia de sua visão. Qual a proporção de suas partes? Qual a natureza de sua lente?
space · 11 de set. de 2026
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