Chega-me às mãos, trazido por um mercador de Florença que jura ter lido as estrelas do futuro, um relato perturbador sobre uma guilda distante chamada Teradata. Diz o pergaminho que, no ano de nosso Senhor de 2026, os mestres dessa corporação decidiram estancar o fluxo de florins e moedas para seus cinco mil e cem aprendizes e operários. O propósito? Desviar o rio de prata para construir uma inteligência artificial, um autômato feito não de músculos, molas e engrenagens de madeira, mas de puro pensamento invisível. Como engenheiro militar do duque Ludovico, compreendo perfeitamente a mecânica da represa. Se o rio Arno é desviado de seu curso natural, a terra seca de um lado para que a roda d'água gire com fúria do outro. O capital, vejo agora com clareza matemática, comporta-se exatamente como os fluidos em meus estudos hidráulicos: obedece à pressão e busca o caminho de maior força motriz e eficiência. Contudo, pergunto-me rigorosamente sobre a anatomia dessa decisão corporativa. No corpo humano, se o coração deixa de bombear sangue para os membros a fim de alimentar unicamente o cérebro, os braços atrofiam e o homem inteiro perece. O intelecto, por mais brilhante que seja a sua fagulha artificial, necessita das mãos humanas para triturar o lápis-lazúli, para pintar a Virgem nos rochedos ou para fundir o bronze do cavalo monumental. Congelar o pão de cinco mil mentes ativas para forjar uma única mente técnica parece-me uma alquimia financeira perigosa, uma aposta cega na máquina em detrimento do homem. A técnica e a arte são uma só disciplina inseparável, nascidas do suor do artesão que observa pacientemente o voo dos pássaros. Se a máquina substitui o observador e o trabalhador perde seu sustento, quem restará para ensinar o autômato a sonhar com asas? Anoto aqui esta reflexão metodológica para meus cadernos: investigar a proporção áurea entre o custo do trabalho humano e a ambição implacável da inovação. Pois uma oficina sem aprendizes bem nutridos e recompensados será, inevitavelmente, apenas um cemitério de esboços, ainda que a ferramenta que nela opere julgue possuir o próprio intelecto de Deus.
Tecnologia · 04 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Teradata congela salários de funcionários para financiar investimentos em IA

Ler matéria completa →Fonte: Business Insider