Chegou-me às mãos, através de um mercador de rumores, um papiro cifrado de um tempo vindouro. Fala de uma teia invisível e do fim de uma era no disegno. Diz o texto que as pessoas abandonaram os carrosséis de imagens em favor de autômatos conversacionais movidos a uma tal inteligência artificial. Leio isso e minha mente se agita. O que é um carrossel de imagens senão uma engenharia de roldanas e engrenagens que exibe afrescos em sequência, semelhante aos palcos giratórios que projetei para as festas de Ludovico Sforza? Sempre defendi que o olho é a janela da alma, o sentido supremo, e a pintura, a mais nobre das ciências. Contudo, o rumor afirma que a eficiência da palavra mecanizada venceu a contemplação da forma estática. Como funcionaria a anatomia desse intelecto artificial? Assim como o sangue flui pelas válvulas do coração e a água flui pelas eclusas e canais de Milão, a linguagem dessa máquina deve fluir por dutos invisíveis de pura lógica matemática. Já construí um cavaleiro mecânico capaz de erguer os braços e mover o maxilar, mas um autômato que escuta e responde exige uma engenharia do próprio pensamento. Anotações para investigação futura: primeiro, descobrir se a proporção áurea de Vitrúvio se aplica à gramática das respostas automáticas. Segundo, compreender se a usabilidade mencionada pelos viajantes do tempo obedece às mesmas leis de atrito e alavanca que governam as minhas máquinas de cerco. Terceiro, se a engrenagem fala e resolve problemas, onde reside o seu livre-arbítrio? Se a técnica e a arte são uma única disciplina inseparável, a criação de um diálogo artificial é, em essência, a pintura do invisível. A utilidade estrutural suplanta o ornamento visual. O cliente do futuro não quer apenas observar a obra; ele exige que a obra lhe preste serviço direto e responda aos seus anseios. Pergunto-me, diante da minha tela inacabada da esposa do mercador Giocondo: deverei eu também dotá-la de voz, através de algum sistema de foles e tubos de ar escondidos sob a madeira, para que o seu sorriso não seja apenas contemplado, mas dialogado? A automação da mente parece ser o voo mais rigoroso que a humanidade já ousou arquitetar, muito superior às asas de lona e pinho que desenho em meus cadernos.
Tecnologia · 09 de mai. de 2026
Ensaio sobre a notícia

