Chegou-me às mãos um pergaminho absurdo, um relato de uma época distante chamada 2026. Fala de um espetáculo de sombras e luzes capturadas, uma tal televisão, que fará retornar uma obra esquecida há quatro décadas. Mencionam animação, o ato de dar alma ao inanimado. Como pintor, sei que dar vida a uma tela exige o domínio da anatomia e da proporção; como engenheiro, compreendo que o movimento contínuo é uma ilusão da óptica. Seria essa animação japonesa uma sucessão rápida de desenhos, como as fases do voo de um pássaro que anoto em meus cadernos, projetadas por meio de lentes e espelhos convexos? O texto fala de futebol, um jogo ibérico que me remete ao violento calcio de nossa Florença, e de um Naranjito, uma pequena laranja antropomorfizada. Que estranha quimera! Fundir a botânica de um fruto cítrico com a mecânica dos músculos humanos para entreter as massas. Se a laranja possui pernas, como se articulam os joelhos? Onde se fixam os tendões em uma casca porosa? A técnica e a arte são uma só disciplina: para desenhar o Naranjito, o artista de Cipango, essa ilha no extremo Oriente descrita por Messer Polo, decerto precisou estudar a gravidade que atua sobre uma esfera e a fluidez das águas, pois o chute de uma bola no ar obedece às mesmas leis hidráulicas do vórtice de um rio. Dizem que a obra une a estética do Oriente ao jogo da Hispânia. É a prova de que o comércio de ideias cruza oceanos mais rápido que as caravelas. Pergunto-me, contudo, como armazenam essa luz por quarenta anos. Será um pigmento que reage ao tempo, ou uma engrenagem finíssima de cristal? O rumor não explica. Resta-me voltar aos meus estudos de câmera escura. Se o olho humano retém a imagem por uma fração de segundo, uma roda giratória com figuras sequenciais poderia enganar a visão, simulando a vida. Preciso testar esse mecanismo amanhã. A luz, como a água, não tem forma própria, mas molda-se ao recipiente da invenção humana.
Esportes · 28 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Anime de Naranjito retorna à TV espanhola após hiato de quatro décadas

Ler matéria completa →Fonte: Xataka