Chegou-me às mãos um escrito deveras singular, um despacho de um tempo que ainda não nasceu, falando de reinos com nomes estranhos, 'EUA' e 'Brasil'. Disputam entre si como Florença e Pisa, mas com a vastidão de um oceano entre eles. Diz o papel que um impõe ao outro uma sobretaxa, um tributo sobre as mercadorias. Penso nisto como um dique que se ergue para conter um rio. O comércio é como a água: busca sempre um caminho, nutre ou inunda. Um imposto de '25%' soa como uma barragem formidável, capaz de estancar o fluxo e matar de sede a cidade a jusante. Contudo, o mesmo escrito fala de oitocentas e sessenta e quatro exceções. Não é uma barragem, então, mas um sistema de canais e comportas. Um artifício para desviar o curso principal, mantendo vivas as veias secundárias. O corpo do comércio não sofre um golpe mortal; seu sangue é apenas redirecionado. É a ciência das águas aplicada ao governo dos homens. O autor do despacho chama a isto 'um gesto mais político do que econômico'. Compreendo. É a arte da aparência, tal como na pintura. Ameaça-se com a sombra de uma espada, mas a lâmina nunca toca a carne. É um jogo de luz e sombra para moldar a percepção, não para alterar a substância. Mas o que verdadeiramente assalta meu espírito é uma menção passageira: 'componentes de aeronaves'. Aeronaves! Máquinas voadoras, portanto, não são mais o delírio de um só homem. Elas existem, e suas partes são tão valiosas que se tornam moeda de troca entre estes reinos futuros. O homem voará. As asas que desenho, os estudos sobre o bater das asas do morcego e o planar da águia... não são em vão. A mecânica do voo, a mecânica dos rios, a mecânica do poder – são todas uma só disciplina. Devo retornar aos meus estudos. Que forma terão estas asas? De que materiais são feitas? Como vencem o peso do homem e a resistência do ar?
Mercados · 16 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

EUA tarifam Brasil, mas lista de exceções esvazia o golpe

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