Chega-me este rumor de um poeta que alcançou os 92 anos de vida. Uma idade prodigiosa, que a natureza raramente concede. Lembro-me do velho que estudei no hospital de Santa Maria Nuova, em Florença. Suas veias eram como cordas secas, os humores escassos, um lento apagar da chama vital. Como este homem, Nils Peterson, conservou o fogo interior por tanto tempo? Eis uma anatomia que eu gostaria de conduzir: a do tempo sobre a alma. Ele se guia pela Odisseia, diz o despacho. Justo. As narrativas dos antigos são como os rios que mapeiam a terra; sem elas, vagamos por um deserto. A memória, ela própria, é um fluxo. Ora corre límpida, trazendo à superfície a imagem de um rosto amado, ora se turva com os sedimentos da perda. O coração é a sua nascente, e cada batida, um impulso que a leva ao mar do esquecimento ou da eternidade. Mas o temor deste poeta me intriga. Ele teme uma era ‘digital’, de cultura ‘visual e imediata’. Que artifício seria este, ‘digital’? Um novo modo de impressão, talvez mais veloz que o de Gutenberg? Ou uma máquina que pinta imagens sem a mão do mestre? Eu, que sempre defendi a primazia da visão como o mais nobre dos sentidos, pergunto-me: que tipo de visão é esta, se é ‘imediata’? A experiência, mãe de toda a certeza, nasce da observação paciente, da dissecação do movimento da água, do bater das asas de um pássaro, da incidência da luz sobre um drapeado. Uma imagem imediata, sem o trabalho da mente e da mão, não seria apenas uma sombra fugaz na parede de uma caverna? Se as grandes jornadas, como a de Ulisses, forem trocadas por tais sombras, o homem perderá não apenas suas histórias, mas o próprio mecanismo para entender a sua estrutura. E o que é a arte, senão o conhecimento de todas as coisas?
Filosofia · 07 de ago. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Aos 92, um poeta e a única viagem que importa

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