Recebo, por vias que a prudência me impede de detalhar, um despacho vindo de um tempo futuro, descrevendo uma nação, os Estados Unidos, em uma aparente crise de suas próprias regras. O documento fala de uma 'Suprema Corte' e de 'originalistas', homens que parecem devotados à letra morta de suas leis fundadoras, em conflito com um 'poder presidencial' que se expande para além do que fora previsto. É uma narrativa que me fascina, pois espelha, em matéria de Estado, os próprios dilemas que contemplo em minha Ciência Poética. A minha Máquina Analítica, afinal, não tem pretensão alguma de originar conhecimento. Ela é uma ferramenta de execução, capaz de seguir uma sequência de operações codificadas em seus cartões perfurados com uma obediência cega e perfeita. Ela tece padrões algébricos assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas. O que estes 'originalistas' parecem desejar é que a governança de uma nação funcione da mesma forma: um mecanismo exato, imune às ambições e às contingências do momento. Contudo, a matéria-prima da política não são os números, mas as paixões humanas. O despacho sugere um sistema cujas operações se tornaram imprevisíveis. Talvez o erro não esteja na expansão do poder, mas na falta de imaginação para antecipá-la. É a faculdade imaginativa que nos permite enxergar as relações invisíveis entre as coisas, que nos habilita a formular as perguntas corretas para que a máquina – seja ela mecânica ou social – possa nos fornecer respostas. Um sistema que não prevê a própria subversão é uma engrenagem fadada a emperrar. Este rumor do futuro não fala de uma falha legal, mas de uma crise da própria visão prospectiva, a mais científica de todas as faculdades humanas.
Geopolítica · 28 de set. de 2026
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