Chega-me às mãos um relato absurdo, datado de séculos além do meu tempo, sobre um conclave na Gália, em uma cidade chamada Cannes. Falam de um ano longínquo, após uma grande guerra que deixou a Europa em ruínas — um cenário que não me é estranho, dadas as campanhas de César Bórgia e as cinzas que frequentemente cobrem nossa península. O que me fascina, contudo, é a máquina de cura que descrevem: o cinema, uma projeção de sombras luminosas, e seus cartazes, pinturas sobre papel destinadas a reconstruir o espírito de multidões. Sempre defendi que a pintura é a rainha das ciências. Ela não apenas imita a natureza, mas a recria. Ao ler sobre essas telas gigantes que reúnem homens no escuro para sonhar em conjunto, penso imediatamente na câmara escura. Se a luz que entra por um pequeno orifício projeta a imagem invertida do mundo exterior na parede oposta, não seria possível, através de um mecanismo de engrenagens e espelhos, fazer essa imagem mover-se? A água de um rio não é estática; o voo do milhafre depende do fluxo contínuo do vento sob suas asas. A vida é movimento. Uma máquina capaz de reter o movimento das sombras seria o triunfo definitivo da óptica sobre a mortalidade. Anotação: investigar a persistência da imagem na retina. Se eu desenhar as fases do galope de um cavalo e as apresentar em sucessão rápida perante a luz de uma lamparina, a mente humana completaria o movimento? O relato menciona que dezenas dessas obras competiram por glória entre os escombros. Os cartazes, dizem, serviram como faróis de esperança. Eis a prova de que a engenharia e a arte são a mesma disciplina. Desenhar uma ponte para cruzar o rio Arno ou desenhar uma imagem para cruzar o abismo do desespero humano exige o mesmo rigor geométrico, a mesma compreensão das proporções divinas. Os povos do futuro, ao que parece, compreenderam que quando as cidades de pedra desmoronam sob o fogo dos canhões, é a arquitetura da luz e do pigmento que oferece o primeiro refúgio seguro para a mente. Resta-me voltar aos meus espelhos e lentes. A mecânica da memória coletiva, pelo visto, depende da luz tanto quanto o olho humano.
Cinema · 15 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Cannes 1946 — quando o cinema tentou reconstruir o mundo através de cartazes

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