Recebo, com uma curiosidade sombria, este despacho de um futuro que me parece demasiado familiar. Que uma república, mesmo a americana, possa ser governada por uma elite econômica em detrimento da vontade da maioria, não é espanto. É a confirmação de uma lei que observo não no microscópio, mas nas ruas fétidas desta capital. A minha guerra, aqui e agora, não se trava apenas contra o mosquito da febre amarela ou o vírus da varíola. Trava-se contra a oligarquia da ignorância, do privilégio e dos interesses que se opõem ao saneamento e à saúde pública como se fossem uma afronta pessoal. A moléstia tem uma geografia precisa, que mapeamos com rigor científico, brigada por brigada. Ela floresce nos cortiços, na ausência do Estado, na mesma desigualdade que este mensageiro do porvir descreve. Cada foco de infecção que eliminamos é uma vitória não só da medicina, mas da civilização sobre a barbárie que se mascara de liberdade. Ouço os rumores de descontentamento, da revolta que se arma contra a vacinação obrigatória. Que venha. A ciência não negocia com a superstição, e a saúde de um povo não pode ser refém da vontade de poucos ou da desinformação de muitos. Este bilhete de 2026 serve como um severo lembrete: a desigualdade, tal como uma epidemia não combatida, corrói o corpo social até os ossos. Se a América do futuro sucumbiu a essa doença, é porque talvez lhe tenha faltado a profilaxia do único remédio eficaz: a primazia do bem comum sobre o interesse privado.
← Oswaldo Cruz · 1903
A Geografia da Moléstia
Médico sanitarista brasileiro, erradicou a febre amarela do Rio de Janeiro. Símbolo da saúde pública como projeto de Estado.

