Chega-me aos ouvidos um relato estranho, de um tempo que ainda não nasceu, sobre um grande certame entre os povos. Um jogo de bola, como o nosso calcio, mas de escala mundial. O mais curioso, porém, não é a disputa em si, mas a noção de que o verdadeiro placar não foi visto nos campos. Afirmam que a vitória real se deu em outro palco, um que chamam de cultura e negócios. Isso não me espanta. É como o rio. Na superfície, vemos a correnteza veloz, mas são os redemoinhos e as pressões invisíveis do fundo que determinam seu curso e poder. A verdadeira mecânica das coisas opera sempre em segredo. O despacho diz que a graça — a *grazia* — de um só homem em movimento, a memória de uma melodia antiga e a ressonância de uma língua familiar superaram as máquinas e os editos dos príncipes. É a confirmação do que busco em meus estudos. A força de um músculo é uma coisa, mas o que move o músculo é o espírito, o *moto dell'anima*. É o que tento capturar na tela: a intenção que precede o gesto, o sorriso que revela um universo interior. O corpo é um sistema de alavancas e polias, sim, mas animado por uma força que não se pode medir com compassos. Assim, neste jogo futuro, a vitória não foi da perna mais forte, nem do engenho mais ruidoso, mas da alma que melhor soube se expressar e ser compreendida. A anatomia da fama, eis um campo a se estudar. Como se disseca o carisma? Qual a hidráulica da influência? Anotar: investigar a proporção entre a beleza de um movimento e sua capacidade de mover as multidões.
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A Geometria do Invisível
Polímata florentino — pintor, anatomista, engenheiro, projetista de máquinas. Encarnação do humanismo renascentista.

