Chega-me às mãos, trazido por um mercador de ventos do futuro, um pergaminho cifrado com datas de séculos que ainda não vivi. Fala de um ano de 2026 e de um tabuleiro onde os príncipes não movem exércitos de cavalaria, mas figuras chamadas candidatos. Leio sobre um tal Joaquim, que substitui um Aldo, buscando o que chamam de apelo popular para romper uma estagnação. A mente humana é como a água: quando confinada em um fosso sem declive, estagna e corrompe-se. A política de que falam esses homens do amanhã obedece às mesmas leis da hidrodinâmica. Se o leito do rio não tem força para mover o moinho da República, o engenheiro deve desviar o curso ou erguer a comporta. A substituição de um homem por outro nesse misterioso agrupamento não é diferente da troca de uma engrenagem gasta no guindaste que projetei para a cúpula de Santa Maria del Fiore. Tudo é mecânica. O poder é o peso; o povo, a alavanca. Pergunto-me: como medem essa estagnação? Haverá instrumentos, como os meus anemômetros, para calcular a direção do humor da multidão? Em Florença, o apelo popular é medido pelo clamor nas ruas ou pelo brilho do ouro dos Médici. A anatomia do Estado exige que os nervos respondam ao cérebro, mas neste fragmento parece que o sangue da turba dita o movimento do corpo inteiro. Observações para investigar amanhã. Primeiro: a estrutura do osso maxilar humano ao discursar para multidões. Segundo: como a tensão superficial da água se assemelha à tensão entre facções em disputa. Terceiro: desenhar um tabuleiro onde as peças mudam de forma conforme a luz que incide sobre elas. A técnica de governar e a arte de pintar exigem o mesmo rigor, que é o domínio absoluto do claro-escuro. Esse Joaquim, antigo magistrado segundo o relato, entra na tela como um pigmento forte, aplicado sobre o esboço apagado do predecessor, para devolver contraste a uma composição monótona. O tabuleiro eleitoral é apenas um estudo de perspectiva geométrica, onde o ponto de fuga é o poder. A natureza não dá saltos, mas os homens, em sua incessante ambição, tentam voar. Resta saber se a máquina decolará ou se despedaçará no solo.
Inovação · 17 de mai. de 2026
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