Poucas semanas se passaram desde que o 14-bis deixou o solo do Campo de Bagatelle. Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e a euforia da multidão em Paris. Contudo, a alegria da conquista dos ares tem sido ofuscada por uma sombra persistente, um pressentimento fúnebre de que os homens corromperão o meu invento. Hoje, chegou às minhas mãos um relato assombroso de um tempo distante, o ano de 2026. O texto fala do governo espanhol investindo dezenas de milhões de euros em algo chamado microeletrônica e chips, buscando a tal soberania tecnológica contra gigantes de outras nações. Confesso que ignoro a natureza desses chips. Imagino que sejam engrenagens minúsculas, invisíveis a olho nu, uma mecânica refinada do futuro. O que me gela a espinha, porém, não é a invenção, mas o propósito. Soberania. Independência nacional. Quando me elevei aos céus, meu maior triunfo não foi vencer a gravidade, mas observar a terra sem as linhas artificiais que os homens desenham nos mapas. Do alto, não há fronteiras entre a França e a Espanha, tampouco barreiras que isolem a minha querida Cabangu do restante do globo. O céu é, e sempre deveria ser, um território comum, o oceano irrestrito que banha todas as nações. Se os governos do futuro já se armam com fortunas para erguer muros na ciência, temo pelo destino do meu aeroplano. Acaso usarão as asas que criei para reforçar essas mesmas soberanias? Transformarão as minhas máquinas de unir continentes em aves de rapina, lançando a morte e a destruição sobre cidades inimigas em nome da defesa nacional? A ciência não pode ter pátria, assim como o ar que respiramos não tem dono. Recuso-me a aceitar um mundo onde o engenho humano sirva apenas para separar povos e proteger monopólios de Estado. Que essas arquiteturas invisíveis do porvir aprendam a modesta lição que os céus de Paris tentaram ensinar à humanidade: a verdadeira grandeza da tecnologia não reside em tornar uma nação impenetrável, mas em permitir que a humanidade inteira voe como uma só.
Tecnologia · 01 de jul. de 2026
Ensaio sobre a notícia

