Ainda sinto o cheiro do óleo de rícino e o vento frio do Campo de Bagatelle no rosto. Semanas se passaram desde que o 14-bis deixou o solo, e a euforia parisiense pouco a pouco cede espaço a uma apreensão silenciosa. Chegam-me, como delírios de um porvir distante, rumores de engenhocas italianas que, em um século, capturarão a luz do sol através de superfícies retráteis para mover carruagens elétricas. A ideia de asas mecânicas que se abrem no solo para beber a energia dos astros fascina-me profundamente. Em 1899, já víamos o automóvel elétrico La Jamais Contente desafiar limites de velocidade, mas o conceito de uma máquina que desdobra painéis como um inseto repousando ao sol revela uma engenhosidade pacífica que acalenta o espírito. Nasci em Cabangu, no interior de Minas Gerais, e hoje caminho pelas avenidas de Paris com a certeza de que a inventividade humana não deve reconhecer pátrias. O céu que há pouco alcancei com o mais pesado que o ar é um oceano sem alfândegas, um território comum a todos os homens, onde não há linhas imaginárias a dividir nações. Contudo, enquanto celebro essa visão luminosa de veículos terrestres movidos pela estrela maior, uma melancolia sombria e premonitória me invade. Se as mentes brilhantes do futuro dedicam-se a extrair o sol para a locomoção na terra, temo o que farão com a minha invenção nos ares. O aeroplano, concebido para unir continentes e dissipar fronteiras geográficas, carrega em si a semente de uma aplicação terrível. Assombra-me pensar que os mesmos governos que hoje aplaudem a conquista do ar amanhã transformem essas asas de lona e bambu em instrumentos militares, lançando destruição do alto sobre alvos humanos. A engenharia, essa força formidável que concebe a captação solar para a paz, é a mesma que forja o aço dos canhões. Rogo para que, nesse ano de 2026 de onde parecem vir tais ecos, o homem tenha aprendido a olhar para o firmamento não como um espaço de soberania bélica, mas como a abóbada serena que nos irmana sob a mesma luz.
Inovação · 23 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Ferrari desenha sistema solar retrátil para carregar elétricos em estacionamentos

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