Paris ainda celebra. As aclamações pelo voo no Campo de Bagatelle ecoam, mas em meu espírito já se instala uma outra quietude. A multidão vê a conquista do ar; eu vejo a abertura de um novo território, que anseio seja de todos, livre como as nuvens da minha infância em Cabangu. Chega-me às mãos um despacho curioso, um rumor vindo de um futuro distante. Fala de uma 'impressão 3D' em Nova York, de uma 'Makelab' que promete 'revolucionar a produção industrial', aproximando o 'digital do físico'. Confesso que a linguagem me escapa. O que seria essa impressão que não usa tinta, mas constrói objetos sólidos a partir do nada, do etéreo? Eu, que passo meus dias entre plantas e protótipos, que conheço o cheiro do metal e da madeira, imagino essa força com um misto de assombro e desconfiança. É como se o sonho de um inventor pudesse saltar do papel diretamente para a realidade, sem a mediação demorada e artesanal das oficinas. A ambição de aproximar o desenho da coisa desenhada é a minha própria. O 14-bis não foi outra coisa senão a teimosa materialização de uma ideia. Contudo, um calafrio me percorre. Toda nova ferramenta que o homem cria para si traz consigo uma sombra. Meu avião, que concebi para encurtar distâncias e irmanar os povos, já o vejo cobiçado por olhares militares. Temo que o destino de seu voo não seja o de unir, mas o de lançar bombas de cima. E essa 'impressão' milagrosa, capaz de criar o que a mente concebe? O que impediria que materializasse não apenas peças para a indústria, mas também os instrumentos da guerra, em uma escala e velocidade que mal ouso imaginar? O céu não tem fronteiras. A engenhosidade humana também não deveria ter. Espero, do fundo da minha alma de inventor, que essa nova forma de criar sirva para construir pontes, não para aprofundar abismos. Que a matéria dos sonhos sirva à vida, e não à sua destruição.
Design · 02 de out. de 2026
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